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Perseguição
Atualmente, muita gente opina sobre o projeto de lei que se propõe
atingir o coração dos rodeios, ao proibir esportes que venham perseguir
animais.
A palavra perseguir provém do latim vulgar “persequo”. Significa culatrear,
acoçar, encalçar, seguir... O dicionário Houaiss da Língua Portuguesa,
define a palavra perseguir como “correr atrás, submeter com violência,
impor tormentos, flagelar”...
Algumas pessoas extrínsecas a tais esportes posicionam-se sobre eles,
sem conhecimento de causa e outras até legislam sobre os quais. É o
direito de cada um, em se tratando de uma democracia plena como a que
vive-se no país. Independente do foco da opinião, a favor ou contra,
há pouca reflexão sobre o projeto de lei, o todo de eventos que utilizam
estes expedientes e as condições de convívio entre homem e animal, especialmente
no que se refere ao gaúcho.
É necessário debate amplo, sem preconceito de ambas as partes, para
que haja correção e ajuste tanto nos esportes quanto no projeto de lei.
Por fim, é importante haver consciência de que a palavra perseguição
está descrita no mesmo dicionário como “intolerância contra algum conjunto,
organismo ou grupo social”.
Integração cultural
A América do Sul, tão igual a Europa, primeiro fundamenta sua cultura
para depois haver a definição das fronteiras e consolidação da nações.
Não é por acaso que Espanha e Portugal são timbrados com traços culturais
tão semelhantes.
Por estas bandas, especialmente no sul do continente, a oscilação das
fronteiras e os traços comuns dos colonizadores dão ao povo este jeito
diferente de ser, com grande acentuação moura na altivez de homem-a-cavalo.
Passadas as guerras de fronteiras, as revoluções de irmãos contra irmãos,
resta às atuais gerações curar estas chagas com a irmanação dos povos
através da cultura, que é o signo mais próximo entre estes, que por
circunstâncias políticas são separados em nações distintas.
Os eventos multinacionais e as turnês internacionais que marcam a união
dos artistas e dos públicos dos diversos países integrados culturalmente
são apenas o reflexo desta necessidade de legitimar algo diferente do
que a ação políticas impõe ao povo.
Carteiro morde o cachorro
O carteiro morder o cachorro dá manchete de capa, mas o cachorro morder
o carteiro não vira notícia porque é fato corriqueiro. Essa é a máxima
que se usa com frequência nos cursos de jornalismo nas mais diversas
universidades.
Com o advento da transmissão do Enart pela televisão, uma delas do próprio
MTG e algumas reportagens em jornais diários famosos, se instaura um
debate nas redes sociais sobre a cultura gaúcha na mídia.
Sem entrar no detalhe de que a mídia não é composta somente pelos ricos
da comunicação, é importante que não se deixe levar pela inocência de
que de uma hora para outra os que mantém uma espécie de monopólio de
rádio, TV e jornais ficam bonzinhos e começam a olhar com bons olhos
para a cultura gaúcha.
Eles pautam as discussões do dia a dia, tanto que o fato deles darem
certo destaque ao Enart passam a parecer mais importantes do que o próprio
evento, um êxito com ou sem a participação da chamada grande imprensa.
Não sejamos inocentes, algum cachorro grande foi mordido.
Comemorar ou reverenciar
O Rio Grande do Sul realiza seus atos cívico-culturais referente a Semana
Farroupilha em geral em mais dias do que o oficial de 14 a 20 de setembro.
Com o advento de ser mais do que uma semana de festa e espetáculos,
passa-se a chamar de “Comemorações Farroupilhas”. Todavia uma pergunta
paira na cabeça de uma minoria pensante.
Comemorar ou reverenciar?
Não se comemora uma guerra sangrenta entre compatriotas. Pode-se e deve-se
reverenciar a bravura dos que se levantaram contra um império ditatorial
e centralizador. Mas não comemorar uma guerra cujo tratado de paz favorece
aos oficiais e ignora os que realmente estiveram no confronto das batalhas.
O decênio farroupilha deixa de herança aos rio-grandenses um legado
de hombridade, coragem e respeito. Oportuniza que o gaúcho se reconheça
como tipo humano. Isto sim podemos comemorar todos os dias, não somente
em setembro. No que se pode chamar “mês farroupilha” devemos reverenciar
essa herança guerreira.
Sem Comemoração
A data comemorativa dos quarenta anos dos festivais de música nativa
no Rio Grande do Sul só não passou desapercebida porque algumas poucas
vozes se levantaram no meio da multidão, sem serem ouvidas. Fora isso,
ninguém comemorou.
A cidade de Uruguaiana parece ter esquecido do seu lugar na história
dos festivais. Além de não ter realizado a California, sequer organizou
uma promoção de destaque para comemorar quatro décadas de um movimento
que dá novo rumo a cultura musical do sul do Brasil. Os demais festivais
vivem o desespero de conseguir verba para se manter no calendário cultural.
Sem condições de “acender uma velinha”, a não ser para seu santo protetor.
Os artistas e compositores estão muito ocupados com o seu labor cultural
na busca do seu sustento diário para poder destinar algum tempo para
comemorações. As instituições governamentais estaduais não tinham nada
previsto nos seus orçamentos para o fato, o que foi agravado pela troca
de governo. Em 2012 vai acontecer um projeto para lembrar a passagem
da data. Apesar de atrasada, é válida. Que se unam todas as vozes para
comemorar os 40 anos dos festivais a qualquer tempo.
Quarenta anos de dificuldade
O quadro dos quarenta anos de festivais é pintado pela palheta da dificuldade
com tintas de fragilidade, sobre a tela dos esforços. Passadas quatro
décadas da primeira Califórnia não encontra-se um festival que seja
autossustentável. Todos dependem das leis de incentivo ou das verbas
orçamentárias das três esferas do poder. Não há uma profissionalização
das organizações de festivais. Elas são de comando das administrações
municipais, de algum grupo de abnegados ou então de produtores culturais
temporários, que encerrada a última fase da execução de um evento partem
para outra prestação de serviço, somente sendo procurados quando da
necessidade de pensar-se a próxima edição, com raras exceções.
A ausência de uma política cultural em prol dos festivais faz com que
chegue-se ao absurdo de comemorar os quarenta anos do nativismo sem
a realização da Califórnia da Canção Nativa, no ano de seu quadragésimo
aniversário, deflagrando um quadro obscuro com relação a perenidade
saudável deste movimento musical.
De-a-cavalo
O Gaúcho experiente de-a-cavalo é um homem extremamente educado. Não
apeia sem ser convidado diante da casa dos outros, não entra de-a-cavalo
em pátio, mesmo que seja em casa de gente íntima, ou seu no próprio
pátio. Ele sabe que seu cavalo é meio de transporte na paz e de ataque
na guerra. Conhece a força de seu flete e sabe dos riscos que pode oferecer
um animal desta envergadura em caso de um escarceio por susto ou mal
estar.
Alguns gaúchos inexperientes a cavalo cometem atrocidades que um homem
do campo não compreende e entristece. Não recrimina porque, sendo um
homem acostumado a lidar com os animais e com o largo dos campos, entende
a natureza de cada um, mesmo que não aprove.
Merece aplausos a pessoa que teve a ideia de proibir animais dentro
da área de circulação do Parque da Harmonia no decorrer das comemorações
farroupilhas. Estava na hora de alguém ver que é impossível incentivar
o turismo e ao mesmo tempo permitir que gaúchos de final de semana atropelem
de-a-cavalo o público. Seria incauto afirmar que todos os tradicionalistas
cometam tal atrocidade, mas como em tudo, há os experientes e os inexperientes.
Há os gaúchos de-a-cavalo e os a cavalo.
Hegemonia
A discussão dos últimos dias com relação a suposta hegemonia da cultura
campeira no Rio Grande do Sul tem olhares de Marx e de Gramsci. Enquanto
um vislumbra a possibilidade do Estado ser um meio de coersão cultural,
o outro deposita sua confiança na legitimidade edificada do acordo comum
de parcela significativa da população rio-grandense.
Todavia, este debate acirrado está com os dois lados deformados. A cultura
campeira está longe de ser considerada dominante no seu território de
ação, haja vista que para sobreviver ela necessita de constantes aportes
financeiros do Estado, nas três esferas do poder, nacional, estadual
e municipal. É dependente de leis de incentivo à cultura e de outros
apoios governamentais. Sua fragilidade não permite ao bom senso considerá-la
como hegemônica. Ela é, sim, autóctone de imensa área territorial do
Rio Grande do Sul.
Além do mais, hegemonia cultural não pode ser considerada friamente
como sinônimo de poder dominador. Ela é o resultado do consentimento,
mesmo que inconsciente, das massas.
Brasileiro aqui e gaúcho lá
O rótulo muda conforme onde o vivente esteja. Se algum gaúcho está no
Rio Grande do Sul, ele é identificado por sua cidade de nascimento ou
de residência. Se está noutra unidade federativa do Brasil, é gaúcho.
Se está fora do País, é brasileiro.
Eis que surge um fato intrigante no que se refere esta constatação de
identificação.
O Cantor Vitor Ramil é considerado vencedor do Prêmio Açorianos na categoria
Disco MPB com o CD “Délibáb”. Agora está concorrendo como melhor cantor
e melhor disco com o mesmo álbum, na categoria Regional do Prêmio da
Música Brasileira.
Délibáb é a miragem que ocorre nas planícies da Ungria, cuja palavra
é a união das sílabas deli (sul) e bab (ilusão).
Algo está acontecendo, porque ele acaba de ser declarado brasileiro
no Rio Grande do Sul e rio-grandense no Brasil.
É a velha e empoeirada questão dos rótulos que mudam conforme o olhar
dos outros.
Se Cala o Cantor
Em homenagem a Argentino Luna, um dos cantores mais representativos
como a voz do povo latino-mericano, falecido em 19 de março de 2011,
entregamos o editorial desta edição ao seu conterrâneo Horácio Gurany:
“Se cala-se o cantor, cala-se a vida,
porque a vida mesma é toda um canto.
Se cala-se o cantor, morre de espanto a esperança, a luz e a alegria.
Se cala-se o cantor, ficam sós os humildes pardais dos diários.
Os obreiros do porto se persignam, quem haverá de lutar por seus salários.
O que há de ser da vida se o que canta não levanta sua voz pelas tribunas.
Pelo que sofre, pelo que não há nenhuma razão que o condene de andar
sem manta.
Se cala-se o cantor, morre a rosa.
De que serve a rosa sem o canto?
Deve o cantor ser luz sobre os campos, iluminando sempre aos debaixo.
Que não cale o cantor, porque o silêncio covarde apanha a maldade que
oprime.
Não sabem os cantores de agachadas,
não calam jamais frente ao crime.
Que se levantem todas as bandeiras quando o cantor se expresse com seu
grito. Que mil guitarras sangrem na noite uma imortal canção ao infinito.
Se cala-se o cantor, cala-se a vida...”
Alinhamento
O Rio Grande do Sul começa o ano com grandes perspectivas e governabilidade,
porque há muito tempo não estava alinhado com o governo federal.
Na área da cultura, as expectativas ainda são maiores, também porque
o Ministério da Cultura passa a ter gaúchos em importantes posições.
Além disso, pelo fato de o governo estadual anterior não ter firmado
convênio com o federal para implantação de Pontos de Cultura, este deve
estabelecer uma verdadeira disseminação dos Pontos de Cultura por todo
Estado, como já está anunciando o secretário de Cultura.
As expectativas são grandes na área da cultura e motivos não faltam,
pois 2011 é o ano que o Movimento Nativista completa quarenta anos de
realização de festivais de música.
Desfile Temático
A cidade de Passo Fundo foi a primeira a apresentar o desfile temático
dentro das comemorações farroupilhas no Estado. Isto aconteceu no início
da última década do século passado. Cada entidade escolhia o tema que
julgaria desenvolver melhor. Tinha-se uma mostra ampla da cultura gaúcha
na avenida. Carros alegóricos impressionantes e pesquisas elogiáveis
eram apresentadas e julgadas por uma comissão formada pelos próprios
CTGs concorrentes. Na época, o coordenador regional do MTG foi totalmente
contra a idéia, vindo a se licenciar do cargo por descontentamento de
que a totalidade das entidades tradicionalistas da cidade era favorável.
No momento em que o núcleo central do MTG e a Comissão Estadual dos
Festejos farroupilhas adotaram a idéia como a grande inovação, ignorando
uma década de realização em Passo Fundo, “engessou” o desfile, fazendo
com que um tema único seja desenvolvido por todo Estado. Isto tolheu
a criatividade, inclusive de outras cidades que passavam a desenvolver
temas regionais. Hoje Passo Fundo e mais vinte e quatro cidades realizam
desfiles, atendendo tal determinação. Elas recebem uma parcela irrisória
da verba arrecadada para os festejos do Estado, apenas R$ 10 mil cada,
enquanto em Porto Alegre se gasta cerca de R$ 1 milhão, como se pode
constatar na prestação de contas do ano passado. E as outras 471 cidades
não recebem ajuda, apenas a determinação da temática imposta pela Comissão
Estadual dos Festejos Farroupilhas.
Compreender para mudar
O momento pelo qual passa o Movimento Nativista é de necessidade de
cautela e união dos atores do processo. O ciclo dos festivais está às
vésperas do ano em que se vai comemorar as quatro décadas do surgimento
da Califórnia da Canção Nativa, a mola propulsora deste movimento poético-musical.
Mas isto não significa a maturidade econômica do movimento. Algumas
evoluções no processo são necessárias e com elas, a natural mudança.
Os organizadores de festivais parecem mais conscientes desta transformação
porque precisam buscar alternativas diferenciadas para o subsídio do
lote de despesas que a produção de um evento do gênero gera. Já os demais
envolvidos no contexto devem estar atentos a estas mudanças ou pelo
menos entender e aceitar que há uma necessária nova forma de se fazer
festival no Estado. Havendo compreensão há entendimento e, por sua vez,
a união cabível para a evolução.
Resgate de Festivais
Depois do surgimento da Califórnia da Canção Nativa e a explosão dos
festivais de música no Rio Grande do Sul, o Projeto Recriar pode ser
considerado o mais importante passo para estes eventos. Ele resgata
festivais que foram expressivos no calendário cultural do Estado e estavam
inativos ou com dificuldade de manter suas edições periódicas: Serra
Campo e Cantiga, Seara da Canção e Primavera do Canto Xucro, para citar
apenas três dos doze previstos. Este projeto, apresentado pela ACOFEM
-Associação das Comissões Organizadoras de Festivais do RS, aporta verba
orçamentária do Ministério da Cultura, através de incontestável apoio
da 1ª vice-presidência da Câmara dos Deputados. Pela primeira vez na
história de 39 anos de festivais de música do Rio Grande do Sul um projeto
desta magnitude consegue mobilizar apoio federal e elevear o movimento
nativista como política cultural do MinC.
No entanto, convém ressaltar que o Recriar é uma derivação do Projeto
Único, trabalhado pela Associação desde o ano de 2001. É natural prever
uma possível tentativa de se chegar, futuramente, no tão sonhado Projeto
Único, um subsídio a todos os festivais do Estado.
Editorial
Produtor cultural
O produtor cultural é um profissional que se especializa em elaboração
de projetos, captação de recursos, realização de eventos, produção artística,
gerenciamento de pessoal, negociação, lei de licitações, prestação de
contas e muitas outras matérias pertinentes ao fato cultural que produz.
Frequenta cursos de extensão, palestras, seminários, debates, conferências,
enfim tudo que aparece, porque necessita estar atualizado. Há quem faz
pós-graduação no setor, em busca de maior qualificação. Não pode ser
considerado um biscateiro, um picareta, um desocupado, um desqualificado...
Ele é um profissional que gera emprego e renda e que induz a produção
cultural. Enquanto o artista brilha no palco e o político angaria crédito
pelo sucesso do evento, ele trabalha incansavelmente nos bastidores,
sem a necessidade de circular sob holofotes. Necessita sim, acumular
experiências para estar mais preparado para outro projeto que está a
espera seu escasso tempo par ser realizado. É um trabalhador digno como
qualquer outro dentro e fora do mundo dos espetáculos e da cultura.
E, por trabalhar com arte tem a sensibilidade aguçada, mas precisa também
aprender a enrijecer para suportar a possível arrogância de alguns artistas
ou burocratas.
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