Horizonte Largo

 

Paulo de Freitas Mendonça Jornalista e Pajador

 

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O Porquê da grafia de Pajador

 

A palavra pajador não é espanhola como pensam alguns. Também não é portuguesa. Ela não existe nos dicionários clássicos destes dois idiomas, muito menos de outro. É de origem sul-americana.

 

A partir desta consideração, esclareço o porquê  de eu escrevê-la com “j”. Por uma questão muito simples. Porque em nosso idioma “y” possui o som de “i”.

O pajador histórico se forma no ambiente dos descampados do sul da América, quando há uma disputa entre três nações que alegam a propriedade destas terras: portuguesa, espanhola e aborígine.

 

Até que provem o contrário, pode-se afirmar que ele está em terras, hoje brasileiras, do mesmo jeito e no mesmo período em que, em uruguaias, argentinas e chilenas.

 

Da mesma forma que afirma o pesquisador argentino Abel Zabala, que o pajador constitui uma figura arquetípica da identidade rio-pratense, julgo que ele seja a identidade cultural do gaúcho brasileiro.

 

Um do indícios de que não se pode impor uma fronteira para o pajador é a semelhança cultural entre gaúchos brasileiros, uruguaios e argentinos, especialmente. São cruzadores de campos que vivem a cantar seus cotidianos e passam a improvisar aleatoriamente o que vêem, tornando-se os primeiros jornalistas xucros destes campos largos, povoados por analfabetos.

 

O poema Martin Fierro, uma referência do cantor gaúcho, andejo e pajadoresco, é escrito por José Hernandez nestas três nações, sem identificar diferenças. Por isso não se deve impor fronteiras para o canto pajadoril e para cultura gaúcha do pampa largo.

Quanto a origem da palavra pajador não há uma definição convencionada, há hipóteses: Alguns autores afirmam que venha de “payo” nome do primitivo habitante de Castilla, outros que seria de “pago” ou “pagueador” e ainda há quem sugira que venha de “palla” nome dado pelos quichuas aos grupos de índios que sentavam nas praças a cantar. Contudo ninguém sabe o certo.

 

Como essa palavra não possui uma etimologia convencionada a escrevo com “j” desde a primeira vez. Mas não estou só, nesta hipótese. Em 1978, quando o professor Mozar Pereira Soares prefacia um livro de Braun, grafa a palavra pajador.  No Dicionário Gaúcho de Alberto Juvenal de Oliveira, o pajador é definido como declamador e cantor popular que improvisa versos. O doutor em filologia e professor da Universidade das Grandes Canárias, na Espanha, Maximiano

 

Trapero publica em seu livro La Décima -Su historia, su geografia, sus manifestaciones pajador como “poeta improvisador en Rio Grande do Sul (Brasil).” Também cita pajada como “nombre de la poesia oral improvisada en décima en el Rio Grande do Sul (Brasil).” O gaúcho Batista Bossle cita em seu Dicionário Gaúcho Brasileiro: Pajador - poeta e cantor popular. Manoelito de Ornellas também cita a palavra em A Origem da Poesia Crioula na Sátira Política. Dá uma das mais lúcidas definições e com a grafia que ora defendo: “Essa aptidão inventiva proporcionou o surgimento de um arquétipo da raça: o pajador, um profissional da poesia e da música, rapsodo errante que andava de pago em pago, luzindo habilidades de seu talento.”

 

O Bibliógrafa Pedro Leite Villas-Boas ao registrar o verbete sobre minha obra em seu Dicionário Bibliográfico Gaúcho, menciona a palavra pajador com esta grafia.

 

Pessoas que julgam que a grafia da palavra pajador tenha que ser com “y” normalmente justificam sua teoria, afirmando que a palavra seja espanhola. Está provado que isto é inverídico. Outros pensam que o pajador brasileiro o é por influência rio-pratense. Comprovo a inconsistência desta afirmação, num livro que está indo ao prelo, contudo isso dá outro artigo.

 

Jayme Caetano Braun sempre grifou a palavra com “y”, eu a escrevo com “j”. Como ela inexiste em dicionários clássicos, cada um usa a seu jeito até que se convencione. Contudo defendo a grafia com  a que me parece mais próxima da realidade brasileira e da pureza do idioma. Todavia, estamos buscando, em diversos seminários, documentação que legitime a palavra.

 

E para complementar, discordo de alguns que afirmam a origem e a grafia da palavra pelo simples fato de que ouviram dizer ou acham que é. Como a arte pajadoril, trato a palavra com responsabilidade.

 

Pajadores

 

São dois palanques plantados,

dois esteios de porteira

para a tropa guitarreira,

dois versos improvisados.

Dois olhares concentrados

numa paisagem distinta.

Um pinta, outro repinta

seu perfume sobre a tela

com a fragrância mais bela

do encanto que alma sinta.

 

São dois lados de um assunto

como quem a tropa encerra

voz no céu e pés na terra

num precioso contrapunto,

num confronto adjunto

pra formar seu universo.

São o verso e o reverso

de tão sublimes visões.

São frutos de inspirações.

São filhos do próprio verso.

 

São tauras de alma bravia

dois gaúchos na estampa

São dois pedaços do pampa

no perfil e na poesia.

São rimas, filosofia,

improvisos e patriadas.

São guitarras afinadas,

verseadores em repecho.

São o enlace e o desfecho

de tão magistrais das pajadas.

 


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