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Porquê da grafia de Pajador
A palavra pajador não é espanhola como pensam alguns. Também
não é portuguesa. Ela não existe nos dicionários clássicos
destes dois idiomas, muito menos de outro. É de origem
sul-americana.
A partir desta consideração, esclareço o porquê de eu
escrevê-la com “j”. Por uma questão muito simples. Porque em
nosso idioma “y” possui o som de “i”.
O pajador histórico se forma no ambiente dos descampados do
sul da América, quando há uma disputa entre três nações que
alegam a propriedade destas terras: portuguesa, espanhola e
aborígine.
Até que provem o contrário, pode-se afirmar que ele está em
terras, hoje brasileiras, do mesmo jeito e no mesmo período
em que, em uruguaias, argentinas e chilenas.
Da mesma forma que afirma o pesquisador argentino Abel
Zabala, que o pajador constitui uma figura arquetípica da
identidade rio-pratense, julgo que ele seja a identidade
cultural do gaúcho brasileiro.
Um do indícios de que não se pode impor uma fronteira para o
pajador é a semelhança cultural entre gaúchos brasileiros,
uruguaios e argentinos, especialmente. São cruzadores de
campos que vivem a cantar seus cotidianos e passam a
improvisar aleatoriamente o que vêem, tornando-se os
primeiros jornalistas xucros destes campos largos, povoados
por analfabetos.
O poema Martin Fierro, uma referência do cantor gaúcho,
andejo e pajadoresco, é escrito por José Hernandez nestas
três nações, sem identificar diferenças. Por isso não se
deve impor fronteiras para o canto pajadoril e para cultura
gaúcha do pampa largo.
Quanto a origem da palavra pajador não há uma definição
convencionada, há hipóteses: Alguns autores afirmam que
venha de “payo” nome do primitivo habitante de Castilla,
outros que seria de “pago” ou “pagueador” e ainda há quem
sugira que venha de “palla” nome dado pelos quichuas aos
grupos de índios que sentavam nas praças a cantar. Contudo
ninguém sabe o certo.
Como essa palavra não possui uma etimologia convencionada a
escrevo com “j” desde a primeira vez. Mas não estou só,
nesta hipótese. Em 1978, quando o professor Mozar Pereira
Soares prefacia um livro de Braun, grafa a palavra
pajador. No Dicionário Gaúcho de Alberto Juvenal
de Oliveira, o pajador é definido como declamador e
cantor popular que improvisa versos. O doutor em filologia e
professor da Universidade das Grandes Canárias, na Espanha,
Maximiano
Trapero publica em seu livro La Décima -Su historia, su
geografia, sus manifestaciones pajador como “poeta
improvisador en Rio Grande do Sul (Brasil).” Também cita
pajada como “nombre de la poesia oral improvisada en
décima en el Rio Grande do Sul (Brasil).” O gaúcho Batista
Bossle cita em seu Dicionário Gaúcho Brasileiro:
Pajador - poeta e cantor popular. Manoelito de Ornellas
também cita a palavra em A Origem da Poesia Crioula na
Sátira Política. Dá uma das mais lúcidas definições e
com a grafia que ora defendo: “Essa aptidão inventiva
proporcionou o surgimento de um arquétipo da raça: o
pajador, um profissional da poesia e da música, rapsodo
errante que andava de pago em pago, luzindo habilidades de
seu talento.”
O Bibliógrafa Pedro Leite Villas-Boas ao registrar o verbete
sobre minha obra em seu Dicionário Bibliográfico Gaúcho,
menciona a palavra pajador com esta grafia.
Pessoas que julgam que a grafia da palavra pajador tenha que
ser com “y” normalmente justificam sua teoria, afirmando que
a palavra seja espanhola. Está provado que isto é
inverídico. Outros pensam que o pajador brasileiro o é por
influência rio-pratense. Comprovo a inconsistência desta
afirmação, num livro que está indo ao prelo, contudo isso dá
outro artigo.
Jayme Caetano Braun sempre grifou a palavra com “y”, eu a
escrevo com “j”. Como ela inexiste em dicionários clássicos,
cada um usa a seu jeito até que se convencione. Contudo
defendo a grafia com a que me parece mais próxima da
realidade brasileira e da pureza do idioma. Todavia, estamos
buscando, em diversos seminários, documentação que legitime
a palavra.
E para complementar, discordo de alguns que afirmam a origem
e a grafia da palavra pelo simples fato de que ouviram dizer
ou acham que é. Como a arte pajadoril, trato a palavra com
responsabilidade.
Pajadores
São dois
palanques plantados,
dois
esteios de porteira
para a
tropa guitarreira,
dois
versos improvisados.
Dois
olhares concentrados
numa
paisagem distinta.
Um
pinta, outro repinta
seu
perfume sobre a tela
com a
fragrância mais bela
do
encanto que alma sinta.
São dois
lados de um assunto
como
quem a tropa encerra
voz no
céu e pés na terra
num
precioso contrapunto,
num
confronto adjunto
pra
formar seu universo.
São o
verso e o reverso
de tão
sublimes visões.
São
frutos de inspirações.
São
filhos do próprio verso.
São
tauras de alma bravia
dois
gaúchos na estampa
São dois
pedaços do pampa
no
perfil e na poesia.
São
rimas, filosofia,
improvisos e patriadas.
São
guitarras afinadas,
verseadores em repecho.
São o
enlace e o desfecho
de tão
magistrais das pajadas.
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