Horizonte Largo
Por Paulo de Freitas Mendonça *
Medo do esforço intelectual
“O ignorante não se admira de nada; o espírito medíocre está sempre satisfeito; tudo lhe parece natural, e não procura as razões, isto é, as causas e as leis”. L. Riboulet.
Esta frase de Riboulet, escrita na primeira metade do século passado, está cada vez mais moderna. Se o olhar for focado no que produz a indústria cultural neste início de terceiro milênio, parece que estamos nos encaminhando cada vez mais para o fundo do poço. Da televisão é impossível arrancar alguma coisa que preste culturalmente. As músicas que rodam nas rádios são sofríveis, os espetáculos são duvidosos e as obras primas não chegam ganhar notoriedade porque a mídia as rejeita.
A cada ano surgem mais veículos impressos de fofoca e tragédias, da chamada imprensa sensacionalista ou marrom. Até alguns jornais entram nesta dança da futilidade. Em virtude disso, os medíocres assumem posições de destaque na mídia.
O ignóbil vira tema de notícias com criminosa parcialidade. Alguns apresentadores se colocam na condição de juízes. Isto não é jornalismo, é show, e de mau gosto.
Quando alguém contesta este espetáculo generalizado de banalidades, vem a resposta imediata e simplista de que o povo precisa de diversão, e que apenas está querendo ser feliz.
Isto não é felicidade, é droga, que causa dependência. É, antes de tudo, o medo do esforço intelectual, a ânsia de ser reconhecido entre a maioria, o desprezo a tudo que não consegue compreender.
Chegamos ao ponto que grande parcela das pessoas julgaria ridícula esta pérola de Macaulay: “Gostaria mais ser um pobre em uma choupana com bons livros do que rei poderoso que não amasse a leitura”.
O homem por detrás da obra
Quando a qualidade e a humildade ou o talento e modéstia andam juntos, a arte se torna mais valorizada e o ser humano portador dessas virtudes, mais admirado. Esta leitura de vida e obra me reporta imediatamente a duas pessoas que tenho o privilégio do convívio, embora pequeno no tempo, mas grande na intensidade, os quais chamo de amigo com a tranqüilidade. Essas duas pessoas não conhecem uma a outra, mas são muito parecidas. Me refiro ao argentino Abel Zaballa e ao brasileiro Álvaro Santi.
Abel Zaballa tem um livro lançado na Europa, Al son de Rustica Cuerda, mas em momento algum se vangloria disso. Segue o mesmo observador e investigador da cultura, obra que constrói há meio século. Um amigo em comum que temos, o panamenho Bebito Vargas, definiu muito bem a postura de Zaballa, numa conversa informal em Caracas, capital da Venezuela: “Este homem é a expressão da humildade, parece que está sempre com frio, de braços cruzados e um sorriso gentil no rosto”.
O outro, Álvaro Santi, é poeta com quatro livros lançados, coordena o Fumproarte da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, é membro do Conselho Nacional de Política Cultural, graduado em música pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, intérprete e compositor, e uma das duas pessoas mais discretas quanto ao seu trabalho que conheço. Agora, Santi prepara seu primeiro CD, Trem da Utopia, para ser lançado este ano.
Tal o livro Al Son de Rustica Cuerda, um registro eterno da cultura rio-pratense, o CD Trem da Utopia deve viajar discretamente no tempo sem fim, mas não sem ser notado pelos mais atentos admiradores das obras feitas com carinho, capricho e competência. Atahualpa Yupanqui nos ensina que aquele que se põe atrás de sua obra faz com que ela brilhe. Ratifico, apenas dizendo que o homem não tem que brilhar e sim sua obra, porque o homem morre e sua obra rasga ao tempo.
Independentes
As pequenas coisas escapam às vezes quando se faz um trabalho independente. São detalhes que aos produtores fazem parte da rotina. Um exemplo de falta de informação é o telefone ou email de contato para que outros possam adquirir a obra.
Imigrantes
A prefeitura de São Lourenço do Sul lança um documento histórico denominado Cartilha do Sesquicentenário da Imigração Alemã-Pomerana. O texto original da publicação, produzido por Jairo Scholl Costa, Breno Dietrich e José Sidney Nunes de Almeida, tem 32 páginas e tiragem de dez mil exemplares.
Rádio
O locutor Everton Ribeiro apresenta, desde janeiro deste ano, na Rádio Jornal Cruzeiro FM 92,3 o programa Conhecendo o Rio Grande. Pode-se ouvir em tempo real pela internet, , todos os domingos das 06h às 08h, através do site www. cruzeirofm.com.br.
Acordeon
Minha amiga Lolita Acosta é a diretora executiva do primeiro Encontro Mundial de Músicas de Acordeon, que acontece na cidade de Valledupar, na Colômbia, nos dias 25 e 26 de junho. Acordeonistas de diversos países já confirmam presença. O Brasil vai ser representado pelo gaúcho Beto Caetano.
Paralelamente acontece a rodada de negócios culturais que deve atrair produtores e diretores de gravadoras e editoras.
O HOMEM
Mote:
A alma é emoção.
O corpo é o que come.
A consciência é a que vê.
O homem é o sobrenome.
Glosa:
A alma faz soprar brasa.
A alma é sobressalto.
A alma faz voar alto.
A alma é feita de asa.
A alma faz sua casa.
A alma é coração.
A alma faz sem razão.
A alma é água pura.
A alma faz a cultura.
A alma é emoção.
O corpo quer atitude.
O corpo é paz e calma.
O corpo quer leve alma.
O corpo é plenitude.
O corpo quer juventude.
O corpo é o que some.
O corpo quer não ter fome.
O corpo é natureza.
O corpo quer pôr à mesa.
O corpo é o que come.
A consciência impõe limite.
A consciência é a razão.
A consciência impõe noção.
A consciência é quem permite.
A consciência impõe palpite.
A consciência é a que lê.
A consciência impõe e crê.
A consciência é o meio.
A consciência impõe o feio.
A consciência é a que vê.
O homem vive sua vida.
O homem é criatura.
O homem vive à fartura.
O homem é sem guarida.
O homem vive na lida.
O homem é o seu nome.
O homem vive e consome.
O homem é quem escolhe.
O homem vive ou se encolhe.
O homem é o sobrenome.
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Aos Meus Irmãos
Aos irmãos de continente
de pulsação e energia,
de pátria e de poesia,
de alma e subconsciente,
de respeito mutuamente,
sempre que posso me irmano
porque aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
Irmãos de abraço e sorriso
ou de aperto de mãos,
sendo ou não concidadãos
ou parceiros de improviso,
nada é tudo que preciso
para encontrar um hermano
por que aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
Irmãos de além fronteira
ou daqui, do dia-a-dia.
Independe a geografia
se amizade é verdadeira.
Sendo a alma é bem campeira
bato versos mano a mano.
Por que aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
Meus irmãos, quero brindar
aos de mate e cantiga,
parceiros de prosa amiga,
ou então os de além mar
com quem quero me encontrar
nem que seja ano a ano
por que aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
Meus irmãos desconhecidos
por estas tantas querências
sei de suas existências
por instinto e por sentidos.
Jamais serão esquecidos,
pois a ninguém eu engano
por que aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
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O Chamamé
Chama-me sempre de amor
que a todo bem é capaz.
Senão, chama-me de paz
que é alva mais linda cor.
Chama-me de sonhador,
que quer a todos igual.
Chama-me de fraternal,
que é puro de coração.
Chama-me então de canção
de uma terra sem mal.
Chama-me de alegria
que é benção do eterno Pai.
Chama-me de sapukay
que é explosão de energia.
Chama-me de melodia
que põe a alma de pé.
Chama-me de terra e fé
por eu ser asa e semente.
Chama-me de voz e gente:
Chama-me de Chamamé.
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A Suprema Paz
A paz é mais que um evento,
sutil em sua unidade.
Possui mais diversidade
que da terra ao firmamento.
A paz de estacionamento,
por plasmada, nada faz,
ensimesmada lhe apraz
beber do egocentrismo.
Por ser paz de egoísmo
Não é a suprema paz.
A paz de quem não agride
com falso olhar sereno,
por não judiar do pequeno
se julga grande e regride.
Pela empáfia não progride,
pois tem ganância mordaz.
Dança a vaidade fugaz
na guerra embaixo dos panos,
sendo paz de ares profanos
Não é a suprema paz.
A paz falsa que consola
pondo-lhe a mão na cabeça.
Ao contrário que pareça
produz falácia e enrola,
num discurso que controla
a inocência que ali jaz.
É uma paz incapaz
de acalmar alheia dor.
Por ser de esfera inferior,
Não é a suprema paz.
A paz trançada em tratados,
em contrato ou carta régia,
é uma paz de estratégia
com dois lados deformados.
É paz dos desesperados
que são guerreiros, aliás,
com rastros de sangue atrás,
apenas cessam as mortes
Paz de interesse dos fortes
Não é a suprema paz.
A paz por necessidade
por revanche do vencido
é algo tão sem sentido,
foge a razão da verdade.
É paz sem cumplicidade
que um passo em falso a desfaz.
Logo a guerra se refaz
em sua arte tão ágil.
Por ter fundamento frágil,
Não é a suprema paz.
Paz de interesse vulgar,
gesto de falso cortês,
salgada de insensatez
é gota doce no mar.
Mistura-se ao seu azar
e por mais que seja audaz
torna-se ineficaz
de vestir-se em cortesia.
Por ser paz de antipatia
Não é a suprema paz.
A paz de estar solito
no meio da multidão
ou de arder em solidão
em seu recinto restrito.
É paz que sufoca o grito
da realidade vivaz.
Por sonhador contumaz,
se torna um auto-recluso.
Por ser a paz de um confuso,
Não é a suprema paz.
A paz de grande festejo
só vestida de aparência
é uma paz sem consciência
de destorcido desejo.
Rolam moedas ao tejo
na extravagância voraz.
Quase ninguém é capaz
de conter farto consumo.
Por embriagar seu rumo
Não é a suprema paz.
Paz de alardes frenéticos
de falatórios inúteis
com protagonistas fúteis
e resultados patéticos,
atropela atos éticos,
mostra vistoso cartaz,
porém quem é perspicaz
pouca atenção lhe demanda,
porque a paz de propaganda
Não é a suprema paz.
Contudo, a paz de verdade
tem sopros de onipotência,
de compreensão, clemência,
fé, justiça e caridade,
de infinita bondade,
de servidor pertinaz,
de amoroso tenaz,
vendo a todos como seus.
Só a paz que vem de Deus
É sim, a suprema paz.
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Disse Dom Jayme Caetano
Lembro Dom Jayme Caetano,
o pajador missioneiro,
como um pajé feiticeiro
do xucro verso pampeano.
Quando esteve nesse plano,
disse ao Pago muito bem:
“Às vezes quem nada tem
é aquele que melhor vive,
quantas fortunas eu tive
sem nunca ter um vintém.”
Menestrél iluminado,
do nosso tempo, um Homero,
que teve um cantar sincero
do presente e do passado.
Disse que o Patrão sagrado,
em sua sabedoria,
“deu o canto e a melodia
para os pássaros e os ventos
pra que fossem complementos
do que chamamos poesia”
Fez um relato preciso,
em sua crioula leitura,
que Deus fez criatura
que expulsou do paraíso.
Arrematou d’improviso
com este verso bonito:
“O homem nasce de um grito
e a morte é tão silenciosa
na passagem misteriosa
que apaga nosso infinito”
Poeta e pajador,
o crioulo das missões,
fazia interpretações
do gaúcho campeador,
desde o de fino teor
ao taura da casca grossa:
“Que bárbara a raça nossa,
vejo quando examino,
as origens do teatino
que o chimarrão não adoça”
De-a-cavalo na experiência
que lhe forjou a estatura
num manancial de cultura,
interrogando à existência.
E por ter buena consciência,
disse com sinceridade:
“Aprendi na mocidade
algo que ninguém me tira,
que não há meia mentira,
tampouco meia verdade.”
Por isso tem a certeza
que nada é ultrapassado,
porque tudo está ligado
nas teias da natureza.
Nos explica com clareza
a força da auto-estima:
“Há uma lei que vem de cima
na estrada do tapejara:
- o tempo que nos separa
é o que mais nos aproxima.”
Conheci este cantor
escreve Mozart Pereira
quando abre-lhe a porteira
do potreiro pro leitor.
Também guardo este “honor”;
igualmente o conheci.
E com ele eu aprendi
o que o mundo saberá:
“Por longe que o homem vá
nunca fugirá de si”
Há homens que nascem vento
passam - passam, ninguém nota,
mas os de bombacha e bota
são feitos de sentimento.
Por orgulho ao seu talento
na pajada e na cantiga
sempre ouço voz amiga
a alardear com louvor:
“Que conheceu um cantor
daqueles da marca antiga.
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