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Hoje é quinta-feira, 24 de julho de 2008

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Horizonte Largo

Meio Século da primeira pajada de Braun

Por Paulo de Freitas Mendonça *

Em finais de junho de 1958, quando estou engatinhando aos meus oito meses de vida, Jayme Caetano Braun (foto), na pujança de seus 34 anos, participa do segundo Rodeio de Poetas Crioulos da Estância da Poesia Crioula (EPC). O evento, realizado no CTG Rincão da Lealdade, da cidade de Caxias do Sul, reúne alguns dos mais importantes nomes da poética rio-grandense. Alheios ao surgimento da Bossa Nova ou da fusão nuclear anunciada por ingleses e norte-americanos naquele ano, os intelectuais gaúchos discutem a poética crioula do Pago. A EPC, também denominada como Academia Xucra, completa um ano de atividades. O primeiro Centro de Tradições Gaúchas, o 35 CTG, acaba de comemorar uma década e entidade que sedia o evento está nos seus primeiros anos de sua fundação. A efervescência cultural cria a necessidade de debater e resgatar as origens.

Neste evento está sendo lançado o livro com os anais do 1º Congresso de Poetas Crioulos do RGS, acontecido no ano anterior. Suas 130 páginas estão recheadas de estudos e análise da poética rio-grandense. Nas páginas 61 a 66 está a íntegra do discurso inaugural de Guilherme Schultz Filho, que faz alusão destacada, entre outras questões, às décimas de Manoel do Carmo, na obra Cantares, publicada em 1924, justamente no ano de nascimento do Braun. O então secretário da EPC, Guilherme Schultz Filho, faz reflexão sobre vários poetas, dentre os quais, Delfina Benigna da Cunha e o repentista Pedro Canga com suas glosas, ambos decimistas do Período Farroupilha. Denuncia que a décima anda “mais ou menos esquecida pelos grandes poetas rio-grandenses”.

Braun, preside, assessorado de Dimas Costa, João Pio de Almeida e Vasco Leria, a comissão de estudos das correntes da poesia gauchesca do primeiro rodeio. Esta comissão trata do lirismo, epicismo, pastoralismo, didaticismo, paiadorismo (sic), epigrama e sátira. Também aborda estudos sobre os vultos exponenciais em cada época e corrente, a década Farroupilha e as tendências atuais.

Enfim, o grupo vem há um ano trabalhando no resgate dos gêneros poéticos do Estado. O momento é propício para a recuperação da décima, especialmente na poesia oral improvisada. As energias universais conspiram a favor e aproximam o missioneiro Jayme Caetano Braun do poeta decimista uruguaio, Sandalio Santos (Nicácio García Berisso). Este, após o lançamento de seu livro Décimas de Sandalio Santos (1954), lança sua segunda obra poética, Rumbeando (1958). Ao perceber a veia poética e o poder de improviso de Braun, o uruguaio, de-a-cavalo em sua experiência de 55 anos de idade, lhe passa informações básicas da décima e da pajada.

Braun protagoniza a elevação da décima ao mais alto patamar, jamais conhecido por estas bandas. Realiza magistralmente uma pajada com seu “professor” Sandalio Santos e se torna o primeiro pajador-urbano-profissional do Rio Grande do Sul. Por vinte anos passa a ser o único pajador brasileiro e hoje possui uma gama admiradores e inúmeros seguidores.

Quando caminho em meio século do meu nascimento, tenho o privilégio de alertar para a data dos 50 anos da primeira pajada de Braun, o que não podemos deixar passar em branco.

 

Disse Dom Jayme Caetano

  • Lembro Dom Jayme Caetano,

    o pajador missioneiro,

    como um pajé feiticeiro

    do xucro verso pampeano.

    Quando esteve nesse plano,

    disse ao Pago muito bem:

    “Às vezes quem nada tem

    é aquele que melhor vive,

    quantas fortunas eu tive

    sem nunca ter um vintém.”

  • Menestrél iluminado,

    do nosso tempo, um Homero,

    que teve um cantar sincero

    do presente e do passado.

    Disse que o Patrão sagrado,

    em sua sabedoria,

    “deu o canto e a melodia

    para os pássaros e os ventos

    pra que fossem complementos

    do que chamamos poesia”

  • Fez um relato preciso,

    em sua crioula leitura,

    que Deus fez criatura

    que expulsou do paraíso.

    Arrematou d’improviso

    com este verso bonito:

    “O homem nasce de um grito

    e a morte é tão silenciosa

    na passagem misteriosa

    que apaga nosso infinito”

  • Poeta e pajador,

    o crioulo das missões,

    fazia interpretações

    do gaúcho campeador,

    desde o de fino teor

    ao taura da casca grossa:

    “Que bárbara a raça nossa,

    vejo quando examino,

    as origens do teatino

    que o chimarrão não adoça”

  • De-a-cavalo na experiência

    que lhe forjou a estatura

    num manancial de cultura,

    interrogando à existência.

    E por ter buena consciência,

    disse com sinceridade:

    “Aprendi na mocidade

    algo que ninguém me tira,

    que não há meia mentira,

    tampouco meia verdade.”

  • Por isso tem a certeza

    que nada é ultrapassado,

    porque tudo está ligado

    nas teias da natureza.

    Nos explica com clareza

    a força da auto-estima:

    “Há uma lei que vem de cima

    na estrada do tapejara:

    - o tempo que nos separa

    é o que mais nos aproxima.”

  • Conheci este cantor

    escreve Mozart Pereira

    quando abre-lhe a porteira

    do potreiro pro leitor.

    Também guardo este “honor”;

    igualmente o conheci.

    E com ele eu aprendi

    o que o mundo saberá:

    “Por longe que o homem vá

    nunca fugirá de si”

  • Há homens que nascem vento

    passam - passam, ninguém nota,

    mas os de bombacha e bota

    são feitos de sentimento.

    Por orgulho ao seu talento

    na pajada e na cantiga

    sempre ouço voz amiga

    a alardear com louvor:

    “Que conheceu um cantor

    daqueles da marca antiga.


  • Luiz Marenco
    VEJA REGULAMENTOS DA GUYANUBA DA CANÇÃO NATIVA E DA ANTOLOGIA ANO 20.