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Jornal do Nativismo
Hoje é sábado, 04 de fevereiro de 2012

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Horizonte Largo

Por Paulo de Freitas Mendonça *

LivroA poesia na letra

Desgarrados

de Sérgio Napp

 


Eles se encontram no cais do porto pelas calçadas,
Fazem biscates pelos mercados, pelas esquinas,
Carregam lixo vendem revistas, juntam baganas,
E são pingentes nas avenidas da capital.


Eles se escondem pelos botecos entre os cortiços,
E pra esquecerem contam bravatas, velhas histórias.
Então são tragos muitos estragos por toda noite,
Olhos abertos o longe é perto, o que vale é o sonho.


Sopram ventos desgarrados carregados de saudade,
Viram copos, viram mundos,
Mais o que foi, nunca mais será
Mais o que foi , nunca mais será.


Cevavam mate, sorriso franco, palheiro aceso,
Viravam brasas, contavam casos polindo esporas,
Geada fria, café bem quente, muito alvoroço.
Arreios firmes e nos pescoços lenços vermelhos.


Jogo do osso, cana de espera e o pão de forno,
O milho assado, a carne gorda e a cancha reta,
Faziam planos e nem sabiam que eram felizes,
Olhos abertos o longe é perto o que vale é os sonhos.


A letra da música vencedora da 11 ª edição da Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, de Uruguaiana, festival mais importante da época no Estado, Desgarrados, de autoria de Sérgio Napp, musicada e originalmente interpretada por Mário Barbará, está carregada de poesia, embora poeta que a compôs julgue que não exista poesia em letra de música.
Esta afirmação de impossibilidade de existência de poesia na letra de música talvez seja pelo fato da poesia ser tão pulsante na mente do poeta que ele não se contente com apenas algumas imagens de linguagem, querendo sempre mais, o que é singular dos grandes autores. Mesmo os mais expressivos vates podem ser contestados, especialmente quando for para uma análise literária científica de sua obra. Massaud Moisés afirma que o verso pode ter qualquer tipo de informação, com poesia ou não. Já Aristóteles define que o poema, o que aqui podemos transferir para letra, é concreto, já a poesia é abstrata.
O estro de Napp, já na primeira estrofe possui em seu desfecho uma imagem poética original e precisa [E são pingentes nas avenidas da capital.] Ora, pingente, os mais respeitados dicionários definem como o brinco pendente ou outro objeto que pende em forma de brinco. No ditado popular associa-se à pessoa que viaja de trem ou outro veículo, pendurado pelo lado de fora.
Neste último verso, o poeta vale-se de uma metáfora que dá liberdade ao leitor/ouvinte fazer sua interpretação particular. Ele pode enteder que o desgarrado seja alguém que circula nas avenidas da capital sem ser notado em sua pobreza, como algo que estivesse pedurado à avenida, fazendo parte dela, mas discretamente fora do seu contexto geral de metrópole, um homem do campo distante de seu habitat. Pode também o leitor/ouvinte entender que o poeta utilizou-se de uma alegoria literal do linguajar popular, afirmando que o desgarrado ao ser visto como imagem distinta da sua anterior no campo passe a impressão de que não ostentaria condições financeiras para chegar dignamente à capital. Ou ainda, para uma pessoa mais otimista, diante da saga desenhada pelo autor, pode e entender que ele tenha tentado definir o desgarrado como uma joia rara distinta, mas que enfeita a avenida da capital.
Na segunda estrofe o autor beneficia-se da sonoridade das palavras, valendo-se das rimas coroadas utilizando-se de hipérbole e metonímia, quando define os desgarrados. [Então são tragos muitos estragos por toda noite, ].
No desfecho da segunda estrofe, o vate, ainda utilizando a preciosidade da rima coroada, vale-se de antítese [Olhos abertos o longe é perto, o que vale é o sonho.], ao definir o sonhar acordado.
A seguinte estância da letra é poética a exaustão, é extremamente alégorica, uma sequência de metáforas. [Sopram ventos desgarrados carregados de saudade,].Expressa metáforas em metonímia e anáfora [Viram copos, viram mundos,] e encerra com a antítese [Mais o que foi, nunca mais será].
As últimas duas estrofes da letra joga magistralmente com tropos numa espécie de antítese ao desnudar a realidade do desgarrado que deixa para sempre os usos e costumes rurais e sua vida supostamente farta. O verso [Geada fria, café bem quente, muito alvoroço.] na penúltima estrofe, exprime claramente oposição. Já a última estrofe segue definindo os usos e costumes relegados e encerra com com o verso derradeiro da segunda estância, já analisado, mas que neste local da letra passa a ter mais significado porque desfecha com a conclusão de que sempre haverão pelas avenidas da capital os desgarrados em busca de seu sonho, apesar do sofrimento a eles imposto pela metrópole, tão distinta do campo em todos os signos. Além disso, a obra dá a entender em suas entrelinhas de que eles mesmos não possuem a consciência de sua condição (sub)humana.
As figuras de linguagens desta letra, associadas a bela melodia e sua interpretação, são as responsáveis pelo sucesso da obra, que teria tudo para ser boicotada pelo tradicionalismo gaúcho que prega a imagem do gaúcho ideal. Todavia, sua qualidade poética dá legitimidade à letra que dilui esta barreira ideológica e passa a ser reconhecida como uma das grandes obras do cancioneiro gaúcho, oriunda do movimento nativista.
Como diz René Valz, o poeta expressa-se por imagem e Ribolet é enfático ao afirmar que arte sem imaginação é fotografia da realidade. Na letra em questão, o autor, por expressar-se por imagens e ter inspiração repleta de imaginação, pinta o retrato da (triste) realidade dos desgarrados com poesia, o que serve de oposição a uma afimativa do nobre versejador de que poesia na letra inexista.

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Tributo ao Pajador

Pela passagem dos doze anos de desencarne do pajador missioneiro Jayme Caetano Braun, dia 08 de julho, entrego estas humildes décimas que improvisei no programa do Glênio Reis há quase uma década, citando alguns títulos de sua obra. As gravações nos permitem recuperar emoções.


O bochincho deu-lhe fama
a pajada me fez fã.
O verso tal qual tajã,
emplumado pentagrama.
Arte mágica conclama
o poeta à boemia.
É o vôo de energia
nas noites enluaradas,
para pousar nas pajadas,
improvisadas no dia.

Foi De Fogão em Fogão
que tornou-se o pioneiro
para domar De Primeiro
o mais xucro redomão.
E com Botas de Garrão,
abre cancha e bate cachos,
pois num Potreiro de Guaxos,
bem num costado de cerro,
meio À Moda Martín Fierro,
seus versos já nascem machos.

Quantas Paisagens Perdidas
do Pajador e Troveiro.
Seu entono Missioneiro
merecia muitas vidas.
Nas chegadas e partidas
de Cabral e de Vespúcio
o pajador é um Confúcio
de xucra filosofia.
Mostra à pampa bravia:
Pajada do Negro Lúcio.

Reescreve o prefácio
pajando rude arpejo,
Filosofia de Andejo
dá voz ao Tio Anastácio,
ao Cho-Égua, ao Bonifácio,
aos tropeiros e às prendas
de pulperias e vendas.
Aos do Galpão de Estância,
Rima contra a ignorância:
Pátrias, Fogões e Legendas.

O Vento e o Pajador
são iguais, são infinitos.
Da terra Nasceram Gritos
e Charlas de Domador.
Remorsos de Castrador
que castra e marca por farra.
Ambos são como cigarra,
melodias do pampeiro.
Gaita, Cordeona, Gaiteiro
Pajador, Pampa, Guitarra.

Alma Pampa Sem Diploma
Prece, Geadas, Destinos;
uruguaios e argentinos
sem diferença de idioma
e o brasileiro que soma,
com Paisagens Missioneiras.
Por não querer mais fronteiras,
bem antes do Mercosul,
já canta a união do sul:
Milonga de Três Bandeiras.

Sou seu aluno confesso.
É o que eu Quisera Ter Sido.
Deus atende Meu Pedido
Por isso nada mais peço.
Nesta Evocação expresso
com Meu Canto campechano,
a Dom Jayme Caetano
a gratidão que nos salva
e entrego à Estrela Dálva
este chasque pampeano.

Dou a Última Clavada
do Paraíso Perdido
simplesmente agradecido
ao patrono da pajada,
mas tudo na vida é nada
sem Guitarra e sem poesia.
Ao pajador pediria:
reserve um terreno azul
que o Brasil Grande do Sul
deixo, Talvez Algum Dia.

Se Deus diz: Está na Hora
de haver Silêncio e Luz,
No Corredor, Uma Cruz
há de ficar campo afora.
Eu apeio, sem demora,
do mesmo jeito, altivo.
Pois nesse Galpão Nativo
dois tauras hão de matear
e Do Tempo vão de zombar
sem ter Chimarrão do Estrivo.

Morre Rodolfo Jiménez, se eterniza Argentino Luna

O meu particular amigo, Rodolfo Jiménez “El Negro”, conhecido e reconhecido como Argentino Luna, faleceu na Clínica Favaloro, em Buenos Aires, na noite de sábado, dia 19 de março de 2011, aos 69 anos de idade e 45 de carreira artística. Ele estava hospitalizado havia um mês, tratando de uma enfermidade gastroentestinal. Chegou a ser operado numa cirurgia delicada.
Natural de Madariaga, na Província de Buenos Aires, Argentino Luna é considerado um dos maiores representantes da música sureña argentina.
Era consagrado não somente na Argentina, mas também no Uruguai, Brasil, Paraguai e outros países latino-americanos e da Europa. Foi condecorado com importantes comendas, a exemplo do Condor de Fuego, Limon de Oro, Gardel de Oro, Charrua de Oro y Palma de Plata, entre outras.

O cantor, natural de Madariaga, deixa 05 filhas de seus dois casamentos.
Gravou mais de trezentas músicas, dentre as quais uma em parceria com Jayme Caetano Braun, "Tres Gauchos". Muitos são os seus sucessos: "Zamba Para Decir Adiós", "Mire Qué És Lindo Mi País Paisano", "Pero El Poncho No Aparece", "Me Preguntan Cómo Ando", "Malevo", "Así Cantó Madariaga", "En Cosquín Están Cantando", "Uno Nunca Entiende", "A Mercedes Sosa", "Hijo, No Te Preocupes", "La Razón De Mi Canto", "Desde El Recuerdo Te Canto", "Ando Por La Huella", "Capitán De La Espiga", y "Hoy Función Guitarra y Canto", entre tantos outros.
Argentino Luna não é reconhecido como pajador na Argentina, como se noticia equivocadamente aqui no Brasil, como um dos representantes do canto pajadoril, desde quando improvisou com Jayme Caetano Braun. É sim, consagrado como cantor, compositor e guitarreiro sureño. Mas como a maioria dos cantores crioulos rio-pratenses conhece a estrutura da décima, alguns arriscam improvisos, o que não quer dizer que sejam reconhecidos como tal. Tanto que, em 2009, quando Luna apresentou ao público de Cosquim, o jovem pajador da cidade de Rojas, Nicolás Membriani, soltou esta décima, aqui traduzida por mim.

Se eu fosse pajador
tu sabes que eu não sou
mas irmão onde estou
vou cobrando este valor
tão somente sou cantor
porque este cantar alaga
é fogo que não se apaga
meu irmão, se não te “enojas”
você tem lembrado a “Rojas”
e eu lembro a Madariaga.

Todavia o fato de não ser pajador não tira nada do valor deste grande artista para música campeira do sul da América.
Conheci pessoalmente Argentino Luna no início da década de 80, quando tive o privilégio de apresentá-lo a Jayme Caetano Braun e vice-versa. Ambos eram fãs um do outro sem nunca estar frente a frente. Os dois improvisaram no palco do Teatro da Ospa, em Porto Alegre, num espetáculo importante da época, chamado Canto Sem Fronteira. Fui também, no palco, o apresentador deste magistral encontro.
Depois disso, dividimos outros palcos, a exemplo do Te-Déum de Pajadores da América Latina, em Passo Fundo.
Lembro que no ano de 2002, quando fui honrado com o Troféu Condor de Fuego, na Argentina, Luna era um dos homenageados. Quando foi chamado seu nome, o público que lotava a platéia e os camarotes do Teatro na cidade de Magdalena, cantou à capela uma de suas canções, Mire que és Lindo Mi País Paisano, enquanto ele se deslocava do seu lugar até o palco.
A última vez que nos encontramos foi em março do ano passado, quando participei do 29º Encontro Santosvegano de Pajadores, em San Clemente de Tuyu. Luna fez o espetáculo especial do encontro. Estivemos no mesmo palco e dividimos o camarim. Proseamos algum tempo e rimos bastante. Ele sempre foi muito gentil com seus amigos e carinhoso com seu público. Era um artista espetacular, compositor de grande inspiração e um homem do bem, preocupado com as questões sociais.
Lamento os impasses familiares que causaram desconforto entre os amigos que não puderam despedir-se do colega e o público, do seu ídolo.
Segundo o jornal Cronica, as filhas do primeiro casamento teriam dito que naquele momento não havia mais o Argentino Luna e sim o Rodolfo Jiménez. Com este argumento teriam impedido amigos, artistas, produtores e público de visitar o local do velório.
Segundo este mesmo jornal, o irmão de Luna, Lino Jiménez, também demonstrava-se indignado e teria dito que suas sobrinhas e seus respectivos maridos estão mortos para ele, pois o impediram de levar o corpo do cantor para Madariaga, onde estão enterrados seus pais e seus irmão falecidos.
A viúva Silvina, que viveu com Argentino Luna os últimos dez anos e com ele teve uma filha, estava constrangida. Ela e a filha, Karen, teriam sido proibidas de se aproximar e ter contato com o corpo do seu ente querido.
O irmão de Luna, Lino Jiménez, afirma que as quatro filhas estão bem amparadas com apartamentos próprios e que quando Luna ficou viúvo lhes teria dado tudo. Indiganado, acusa: “Até o cremaram para não ter gastos futuros com ele."
Os produtores do cantor e os amigos do homem-civil também teriam sido barrados no velório.
Em Madariaga, cidade natal do cantor, foi encomendada pelo intendente local e o irmão de Luna, uma missa em homenagem ao filho ilustre. Há quem já fale em erigir um monumento em honra ao "Gaucho de Madariaga"
Argentino Luna não merecia esta inconveniente despedida. Era um artista querido não só no seu país. Sempre cantou sua gente, sua pátria e inclusive suas filhas, em suas belas canções.
"Filha. Seu eu cair no caminho - a morte é uma rodada- Filha, uma coisa te peço, cuide bem da minha guitarra. [..] com ela vesti teu corpo, pintei de branco tua casa, com ela te comprei um livro para abrir-te uma janela [...] Não chores quando eu for. Pensa que eu fui de viagem, com um livro e a guitarra e que tardarei a voltar porque esta gira é mui longa. Se queres rezar por mim, filha, canta, canta... A ausência é menos ausência com uma copla na alma. Ao partir te peço pouco, melhor dito, quase nada. Filha tão somente peço que cuide bem da guitarra." (Palavras Para Milha Filha)
Pelo visto, se Karen não ficar com a guitarra do pai, nem este desejo lhe vai ser atendido.
Estavam duplamente enganadas as pessoas que teriam afirmado que Argentino Luna não existia mais e sim o Rodolfo Jiménez. Quem desencarnou foi Rodolfo Jiménez, Argentino Luna é eterno. O artista não morre, não se crema, não se enterra, porque ele transcende no tempo. Ele é a sua obra.
Nós, os seus amigos, perdemos a presença física de Rodolfo Jiménez, mas nós mesmos, os seus fãs, teremos sempre a presença artística de Argentino Luna, através de suas canções e poemas, cheios de mensagens de otimismo e de amor à terra.


Os Pajadores

São dois palanques plantados,
dois esteios de porteira
para a tropa guitarreira,
dois versos improvisados.
Dois olhares concentrados
numa paisagem distinta.
Um pinta, outro repinta
seu perfume sobre a tela
com a fragrância mais bela
do encanto que alma sinta.

São dois lados de um assunto
como quem a tropa encerra
voz no céu e pés na terra
num precioso contrapunto,
num confronto adjunto
pra formar seu universo.
São o verso e o reverso
de tão sublimes visões.
São frutos de inspirações.
São filhos do próprio verso.

São tauras de alma bravia
dois gaúchos na estampa
São dois pedaços do pampa
no perfil e na poesia.
São rimas, filosofia,
improvisos e patriadas.
São guitarras afinadas,
verseadores em repecho.
São o enlace e o desfecho
de tão magistrais das pajadas.

 

* Jornalista, pajador e apresentador
pajador_mendonca@hotmail.com

 

A PARTE NÃO É O TODO

Peço, antes que comece
este meu verso teatino,
permissão, porque opino
com razão de quem conhece:
nem tudo o que se parece
é o que possa parecer.
Quem só de fora quer ver
pode cair no engodo
A parte não é o todo,
embora pareça ser.

Por conhecer bem a parte
e os seus desmembramentos,
afirmo aos quatro ventos
um saber que se comparte:
cultura não é só arte
que reproduz o viver.
Cultura faz renascer
o genuíno com denodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.

Tradição é uma herança
de valor espiritual. 
Legítima e cultural,
é o fiel da balança.
Alicerce da esperança
do porvir a florescer,
mas se a gente adormecer
o futuro passa o rodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.

Sei, com alma guitarreira,
sopro não é assovio.
Nem toda fronteira é rio,
nem todo rio faz fronteira.
A gota, uma água inteira,
noutra, vai se desfazer.
Pouca, lodo vai fazer,
mas se muita, lava o lodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.

A imagem não é o fato
do qual ela se estrutura,
tampouco a nomenclatura
pode ser dona do ato.
A voz não é o relato
do que pretende dizer.
Não se admite entender
gaúcho qual um apodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.

 

DE ANDAR

Fronteira é uma divisa
imaginária, ilusória,
cada vez menos notória,
cada vez mais imprecisa
quando a alma poleniza
na flor da paz fraternal.
A fronteira é um sinal
que na verdade inexiste
ante o amor que persiste
na pátria espiritual.

O homem nasce pra andar
pelos caminhos difusos
integrando atos, usos
e sua forma de pensar.
O jeito de se postar
expressa suas verdades
e atrai como amizades
os que encontra por aí:
são reflexos de si
em suas afinidades.



O HOMEM

Mote:

A alma é emoção.
O corpo é o que come.
A consciência é a que vê.
O homem é o sobrenome.

Glosa:

A alma faz soprar brasa.
A alma é sobressalto.
A alma faz voar alto.
A alma é feita de asa.
A alma faz sua casa.
A alma é coração.
A alma faz sem razão.
A alma é água pura.
A alma faz a cultura.
A alma é emoção.

O corpo quer atitude.
O corpo é paz e calma.
O corpo quer leve alma.
O corpo é plenitude.
O corpo quer juventude.
O corpo é o que some.
O corpo quer não ter fome.
O corpo é natureza.
O corpo quer pôr à mesa.
O corpo é o que come.

A consciência impõe limite.
A consciência é a razão.
A consciência impõe noção.
A consciência é quem permite.
A consciência impõe palpite.
A consciência é a que lê.
A consciência impõe e crê.
A consciência é o meio.
A consciência impõe o feio.
A consciência é a que vê.

O homem vive sua vida.
O homem é criatura.
O homem vive à fartura.
O homem é sem guarida.
O homem vive na lida.
O homem é o seu nome.
O homem vive e consome.
O homem é quem escolhe.
O homem vive ou se encolhe.
O homem é o sobrenome.


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    Aos Meus Irmãos

    Aos irmãos de continente
    de pulsação e energia,
    de pátria e de poesia,
    de alma e subconsciente,
    de respeito mutuamente,
    sempre que posso me irmano
    porque aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

    Irmãos de abraço e sorriso
    ou de aperto de mãos,
    sendo ou não concidadãos
    ou parceiros de improviso,
    nada é tudo que preciso
    para encontrar um hermano
    por que aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

    Irmãos de além fronteira
    ou daqui, do dia-a-dia.
    Independe a geografia
    se amizade é verdadeira.
    Sendo a alma é bem campeira
    bato versos mano a mano.
    Por que aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

    Meus irmãos, quero brindar
    aos de mate e cantiga,
    parceiros de prosa amiga,
    ou então os de além mar
    com quem quero me encontrar
    nem que seja ano a ano
    por que aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

    Meus irmãos desconhecidos
    por estas tantas querências
    sei de suas existências
    por instinto e por sentidos.
    Jamais serão esquecidos,
    pois a ninguém eu engano
    por que aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

     

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    O Chamamé

    Chama-me sempre de amor
    que a todo bem é capaz.
    Senão, chama-me de paz
    que é alva mais linda cor.
    Chama-me de sonhador,
    que quer a todos igual.
    Chama-me de fraternal,
    que é puro de coração.
    Chama-me então de canção
    de uma terra sem mal.

    Chama-me de alegria
    que é benção do eterno Pai.
    Chama-me de sapukay
    que é explosão de energia.
    Chama-me de melodia
    que põe a alma de pé.
    Chama-me de terra e fé
    por eu ser asa e semente.
    Chama-me de voz e gente:
    Chama-me de Chamamé.


  • -------------------------------------------

    A Suprema Paz


    A paz é mais que um evento,

    sutil em sua unidade.

    Possui mais diversidade

    que da terra ao firmamento.

    A paz de estacionamento,

    por plasmada, nada faz,

    ensimesmada lhe apraz

    beber do egocentrismo.

    Por ser paz de egoísmo

    Não é a suprema paz.


  • A paz de quem não agride

    com falso olhar sereno,

    por não judiar do pequeno

    se julga grande e regride.

    Pela empáfia não progride,

    pois tem ganância mordaz.

    Dança a vaidade fugaz

    na guerra embaixo dos panos,

    sendo paz de ares profanos

    Não é a suprema paz.


  • A paz falsa que consola

    pondo-lhe a mão na cabeça.

    Ao contrário que pareça

    produz falácia e enrola,

    num discurso que controla

    a inocência que ali jaz.

    É uma paz incapaz

    de acalmar alheia dor.

    Por ser de esfera inferior,

    Não é a suprema paz.


  • A paz trançada em tratados,

    em contrato ou carta régia,

    é uma paz de estratégia

    com dois lados deformados.

    É paz dos desesperados

    que são guerreiros, aliás,

    com rastros de sangue atrás,

    apenas cessam as mortes

    Paz de interesse dos fortes

    Não é a suprema paz.


  • A paz por necessidade

    por revanche do vencido

    é algo tão sem sentido,

    foge a razão da verdade.

    É paz sem cumplicidade

    que um passo em falso a desfaz.

    Logo a guerra se refaz

    em sua arte tão ágil.

    Por ter fundamento frágil,

    Não é a suprema paz.


  • Paz de interesse vulgar,

    gesto de falso cortês,

    salgada de insensatez

    é gota doce no mar.

    Mistura-se ao seu azar

    e por mais que seja audaz

    torna-se ineficaz

    de vestir-se em cortesia.

    Por ser paz de antipatia

    Não é a suprema paz.


  • A paz de estar solito

    no meio da multidão

    ou de arder em solidão

    em seu recinto restrito.

    É paz que sufoca o grito

    da realidade vivaz.

    Por sonhador contumaz,

    se torna um auto-recluso.

    Por ser a paz de um confuso,

    Não é a suprema paz.


  • A paz de grande festejo

    só vestida de aparência

    é uma paz sem consciência

    de destorcido desejo.

    Rolam moedas ao tejo

    na extravagância voraz.

    Quase ninguém é capaz

    de conter farto consumo.

    Por embriagar seu rumo

    Não é a suprema paz.


  • Paz de alardes frenéticos

    de falatórios inúteis

    com protagonistas fúteis

    e resultados patéticos,

    atropela atos éticos,

    mostra vistoso cartaz,

    porém quem é perspicaz

    pouca atenção lhe demanda,

    porque a paz de propaganda

    Não é a suprema paz.


  • Contudo, a paz de verdade

    tem sopros de onipotência,

    de compreensão, clemência,

    fé, justiça e caridade,

    de infinita bondade,

    de servidor pertinaz,

    de amoroso tenaz,

    vendo a todos como seus.

    Só a paz que vem de Deus

    É sim, a suprema paz.


  • -------------------------------------------

    Disse Dom Jayme Caetano


    Lembro Dom Jayme Caetano,

    o pajador missioneiro,

    como um pajé feiticeiro

    do xucro verso pampeano.

    Quando esteve nesse plano,

    disse ao Pago muito bem:

    “Às vezes quem nada tem

    é aquele que melhor vive,

    quantas fortunas eu tive

    sem nunca ter um vintém.”


  • Menestrél iluminado,

    do nosso tempo, um Homero,

    que teve um cantar sincero

    do presente e do passado.

    Disse que o Patrão sagrado,

    em sua sabedoria,

    “deu o canto e a melodia

    para os pássaros e os ventos

    pra que fossem complementos

    do que chamamos poesia”


  • Fez um relato preciso,

    em sua crioula leitura,

    que Deus fez criatura

    que expulsou do paraíso.

    Arrematou d’improviso

    com este verso bonito:

    “O homem nasce de um grito

    e a morte é tão silenciosa

    na passagem misteriosa

    que apaga nosso infinito”


  • Poeta e pajador,

    o crioulo das missões,

    fazia interpretações

    do gaúcho campeador,

    desde o de fino teor

    ao taura da casca grossa:

    “Que bárbara a raça nossa,

    vejo quando examino,

    as origens do teatino

    que o chimarrão não adoça”


  • De-a-cavalo na experiência

    que lhe forjou a estatura

    num manancial de cultura,

    interrogando à existência.

    E por ter buena consciência,

    disse com sinceridade:

    “Aprendi na mocidade

    algo que ninguém me tira,

    que não há meia mentira,

    tampouco meia verdade.”


  • Por isso tem a certeza

    que nada é ultrapassado,

    porque tudo está ligado

    nas teias da natureza.

    Nos explica com clareza

    a força da auto-estima:

    “Há uma lei que vem de cima

    na estrada do tapejara:

    - o tempo que nos separa

    é o que mais nos aproxima.”


  • Conheci este cantor

    escreve Mozart Pereira

    quando abre-lhe a porteira

    do potreiro pro leitor.

    Também guardo este “honor”;

    igualmente o conheci.

    E com ele eu aprendi

    o que o mundo saberá:

    “Por longe que o homem vá

    nunca fugirá de si”


  • Há homens que nascem vento

    passam - passam, ninguém nota,

    mas os de bombacha e bota

    são feitos de sentimento.

    Por orgulho ao seu talento

    na pajada e na cantiga

    sempre ouço voz amiga

    a alardear com louvor:

    “Que conheceu um cantor

    daqueles da marca antiga.



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