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Jornal do Nativismo
Hoje é quarta-feira, 10 de março de 2010

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Horizonte Largo

Por Paulo de Freitas Mendonça *

Medo do esforço intelectual
“O ignorante não se admira de nada; o espírito medíocre está sempre satisfeito; tudo lhe parece natural, e não procura as razões, isto é, as causas e as leis”. L. Riboulet. Esta frase de Riboulet, escrita na primeira metade do século passado, está cada vez mais moderna. Se o olhar for focado no que produz a indústria cultural neste início de terceiro milênio, parece que estamos nos encaminhando cada vez mais para o fundo do poço. Da televisão é impossível arrancar alguma coisa que preste culturalmente. As músicas que rodam nas rádios são sofríveis, os espetáculos são duvidosos e as obras primas não chegam ganhar notoriedade porque a mídia as rejeita. A cada ano surgem mais veículos impressos de fofoca e tragédias, da chamada imprensa sensacionalista ou marrom. Até alguns jornais entram nesta dança da futilidade. Em virtude disso, os medíocres assumem posições de destaque na mídia. O ignóbil vira tema de notícias com criminosa parcialidade. Alguns apresentadores se colocam na condição de juízes. Isto não é jornalismo, é show, e de mau gosto. Quando alguém contesta este espetáculo generalizado de banalidades, vem a resposta imediata e simplista de que o povo precisa de diversão, e que apenas está querendo ser feliz. Isto não é felicidade, é droga, que causa dependência. É, antes de tudo, o medo do esforço intelectual, a ânsia de ser reconhecido entre a maioria, o desprezo a tudo que não consegue compreender. Chegamos ao ponto que grande parcela das pessoas julgaria ridícula esta pérola de Macaulay: “Gostaria mais ser um pobre em uma choupana com bons livros do que rei poderoso que não amasse a leitura”. O homem por detrás da obra Quando a qualidade e a humildade ou o talento e modéstia andam juntos, a arte se torna mais valorizada e o ser humano portador dessas virtudes, mais admirado. Esta leitura de vida e obra me reporta imediatamente a duas pessoas que tenho o privilégio do convívio, embora pequeno no tempo, mas grande na intensidade, os quais chamo de amigo com a tranqüilidade. Essas duas pessoas não conhecem uma a outra, mas são muito parecidas. Me refiro ao argentino Abel Zaballa e ao brasileiro Álvaro Santi. Abel Zaballa tem um livro lançado na Europa, Al son de Rustica Cuerda, mas em momento algum se vangloria disso. Segue o mesmo observador e investigador da cultura, obra que constrói há meio século. Um amigo em comum que temos, o panamenho Bebito Vargas, definiu muito bem a postura de Zaballa, numa conversa informal em Caracas, capital da Venezuela: “Este homem é a expressão da humildade, parece que está sempre com frio, de braços cruzados e um sorriso gentil no rosto”. O outro, Álvaro Santi, é poeta com quatro livros lançados, coordena o Fumproarte da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, é membro do Conselho Nacional de Política Cultural, graduado em música pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, intérprete e compositor, e uma das duas pessoas mais discretas quanto ao seu trabalho que conheço. Agora, Santi prepara seu primeiro CD, Trem da Utopia, para ser lançado este ano. Tal o livro Al Son de Rustica Cuerda, um registro eterno da cultura rio-pratense, o CD Trem da Utopia deve viajar discretamente no tempo sem fim, mas não sem ser notado pelos mais atentos admiradores das obras feitas com carinho, capricho e competência. Atahualpa Yupanqui nos ensina que aquele que se põe atrás de sua obra faz com que ela brilhe. Ratifico, apenas dizendo que o homem não tem que brilhar e sim sua obra, porque o homem morre e sua obra rasga ao tempo. Independentes As pequenas coisas escapam às vezes quando se faz um trabalho independente. São detalhes que aos produtores fazem parte da rotina. Um exemplo de falta de informação é o telefone ou email de contato para que outros possam adquirir a obra. Imigrantes A prefeitura de São Lourenço do Sul lança um documento histórico denominado Cartilha do Sesquicentenário da Imigração Alemã-Pomerana. O texto original da publicação, produzido por Jairo Scholl Costa, Breno Dietrich e José Sidney Nunes de Almeida, tem 32 páginas e tiragem de dez mil exemplares. Rádio O locutor Everton Ribeiro apresenta, desde janeiro deste ano, na Rádio Jornal Cruzeiro FM 92,3 o programa Conhecendo o Rio Grande. Pode-se ouvir em tempo real pela internet, , todos os domingos das 06h às 08h, através do site www. cruzeirofm.com.br. Acordeon Minha amiga Lolita Acosta é a diretora executiva do primeiro Encontro Mundial de Músicas de Acordeon, que acontece na cidade de Valledupar, na Colômbia, nos dias 25 e 26 de junho. Acordeonistas de diversos países já confirmam presença. O Brasil vai ser representado pelo gaúcho Beto Caetano. Paralelamente acontece a rodada de negócios culturais que deve atrair produtores e diretores de gravadoras e editoras.

O HOMEM

Mote:

A alma é emoção.
O corpo é o que come.
A consciência é a que vê.
O homem é o sobrenome.

Glosa:

A alma faz soprar brasa.
A alma é sobressalto.
A alma faz voar alto.
A alma é feita de asa.
A alma faz sua casa.
A alma é coração.
A alma faz sem razão.
A alma é água pura.
A alma faz a cultura.
A alma é emoção.

O corpo quer atitude.
O corpo é paz e calma.
O corpo quer leve alma.
O corpo é plenitude.
O corpo quer juventude.
O corpo é o que some.
O corpo quer não ter fome.
O corpo é natureza.
O corpo quer pôr à mesa.
O corpo é o que come.

A consciência impõe limite.
A consciência é a razão.
A consciência impõe noção.
A consciência é quem permite.
A consciência impõe palpite.
A consciência é a que lê.
A consciência impõe e crê.
A consciência é o meio.
A consciência impõe o feio.
A consciência é a que vê.

O homem vive sua vida.
O homem é criatura.
O homem vive à fartura.
O homem é sem guarida.
O homem vive na lida.
O homem é o seu nome.
O homem vive e consome.
O homem é quem escolhe.
O homem vive ou se encolhe.
O homem é o sobrenome.


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    Aos Meus Irmãos

    Aos irmãos de continente
    de pulsação e energia,
    de pátria e de poesia,
    de alma e subconsciente,
    de respeito mutuamente,
    sempre que posso me irmano
    porque aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

    Irmãos de abraço e sorriso
    ou de aperto de mãos,
    sendo ou não concidadãos
    ou parceiros de improviso,
    nada é tudo que preciso
    para encontrar um hermano
    por que aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

    Irmãos de além fronteira
    ou daqui, do dia-a-dia.
    Independe a geografia
    se amizade é verdadeira.
    Sendo a alma é bem campeira
    bato versos mano a mano.
    Por que aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

    Meus irmãos, quero brindar
    aos de mate e cantiga,
    parceiros de prosa amiga,
    ou então os de além mar
    com quem quero me encontrar
    nem que seja ano a ano
    por que aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

    Meus irmãos desconhecidos
    por estas tantas querências
    sei de suas existências
    por instinto e por sentidos.
    Jamais serão esquecidos,
    pois a ninguém eu engano
    por que aqui neste plano,
    excetuando o Criador,
    nada possui mais valor
    que a alma do ser humano.

     

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    O Chamamé

    Chama-me sempre de amor
    que a todo bem é capaz.
    Senão, chama-me de paz
    que é alva mais linda cor.
    Chama-me de sonhador,
    que quer a todos igual.
    Chama-me de fraternal,
    que é puro de coração.
    Chama-me então de canção
    de uma terra sem mal.

    Chama-me de alegria
    que é benção do eterno Pai.
    Chama-me de sapukay
    que é explosão de energia.
    Chama-me de melodia
    que põe a alma de pé.
    Chama-me de terra e fé
    por eu ser asa e semente.
    Chama-me de voz e gente:
    Chama-me de Chamamé.


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    A Suprema Paz


    A paz é mais que um evento,

    sutil em sua unidade.

    Possui mais diversidade

    que da terra ao firmamento.

    A paz de estacionamento,

    por plasmada, nada faz,

    ensimesmada lhe apraz

    beber do egocentrismo.

    Por ser paz de egoísmo

    Não é a suprema paz.


  • A paz de quem não agride

    com falso olhar sereno,

    por não judiar do pequeno

    se julga grande e regride.

    Pela empáfia não progride,

    pois tem ganância mordaz.

    Dança a vaidade fugaz

    na guerra embaixo dos panos,

    sendo paz de ares profanos

    Não é a suprema paz.


  • A paz falsa que consola

    pondo-lhe a mão na cabeça.

    Ao contrário que pareça

    produz falácia e enrola,

    num discurso que controla

    a inocência que ali jaz.

    É uma paz incapaz

    de acalmar alheia dor.

    Por ser de esfera inferior,

    Não é a suprema paz.


  • A paz trançada em tratados,

    em contrato ou carta régia,

    é uma paz de estratégia

    com dois lados deformados.

    É paz dos desesperados

    que são guerreiros, aliás,

    com rastros de sangue atrás,

    apenas cessam as mortes

    Paz de interesse dos fortes

    Não é a suprema paz.


  • A paz por necessidade

    por revanche do vencido

    é algo tão sem sentido,

    foge a razão da verdade.

    É paz sem cumplicidade

    que um passo em falso a desfaz.

    Logo a guerra se refaz

    em sua arte tão ágil.

    Por ter fundamento frágil,

    Não é a suprema paz.


  • Paz de interesse vulgar,

    gesto de falso cortês,

    salgada de insensatez

    é gota doce no mar.

    Mistura-se ao seu azar

    e por mais que seja audaz

    torna-se ineficaz

    de vestir-se em cortesia.

    Por ser paz de antipatia

    Não é a suprema paz.


  • A paz de estar solito

    no meio da multidão

    ou de arder em solidão

    em seu recinto restrito.

    É paz que sufoca o grito

    da realidade vivaz.

    Por sonhador contumaz,

    se torna um auto-recluso.

    Por ser a paz de um confuso,

    Não é a suprema paz.


  • A paz de grande festejo

    só vestida de aparência

    é uma paz sem consciência

    de destorcido desejo.

    Rolam moedas ao tejo

    na extravagância voraz.

    Quase ninguém é capaz

    de conter farto consumo.

    Por embriagar seu rumo

    Não é a suprema paz.


  • Paz de alardes frenéticos

    de falatórios inúteis

    com protagonistas fúteis

    e resultados patéticos,

    atropela atos éticos,

    mostra vistoso cartaz,

    porém quem é perspicaz

    pouca atenção lhe demanda,

    porque a paz de propaganda

    Não é a suprema paz.


  • Contudo, a paz de verdade

    tem sopros de onipotência,

    de compreensão, clemência,

    fé, justiça e caridade,

    de infinita bondade,

    de servidor pertinaz,

    de amoroso tenaz,

    vendo a todos como seus.

    Só a paz que vem de Deus

    É sim, a suprema paz.


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    Disse Dom Jayme Caetano


    Lembro Dom Jayme Caetano,

    o pajador missioneiro,

    como um pajé feiticeiro

    do xucro verso pampeano.

    Quando esteve nesse plano,

    disse ao Pago muito bem:

    “Às vezes quem nada tem

    é aquele que melhor vive,

    quantas fortunas eu tive

    sem nunca ter um vintém.”


  • Menestrél iluminado,

    do nosso tempo, um Homero,

    que teve um cantar sincero

    do presente e do passado.

    Disse que o Patrão sagrado,

    em sua sabedoria,

    “deu o canto e a melodia

    para os pássaros e os ventos

    pra que fossem complementos

    do que chamamos poesia”


  • Fez um relato preciso,

    em sua crioula leitura,

    que Deus fez criatura

    que expulsou do paraíso.

    Arrematou d’improviso

    com este verso bonito:

    “O homem nasce de um grito

    e a morte é tão silenciosa

    na passagem misteriosa

    que apaga nosso infinito”


  • Poeta e pajador,

    o crioulo das missões,

    fazia interpretações

    do gaúcho campeador,

    desde o de fino teor

    ao taura da casca grossa:

    “Que bárbara a raça nossa,

    vejo quando examino,

    as origens do teatino

    que o chimarrão não adoça”


  • De-a-cavalo na experiência

    que lhe forjou a estatura

    num manancial de cultura,

    interrogando à existência.

    E por ter buena consciência,

    disse com sinceridade:

    “Aprendi na mocidade

    algo que ninguém me tira,

    que não há meia mentira,

    tampouco meia verdade.”


  • Por isso tem a certeza

    que nada é ultrapassado,

    porque tudo está ligado

    nas teias da natureza.

    Nos explica com clareza

    a força da auto-estima:

    “Há uma lei que vem de cima

    na estrada do tapejara:

    - o tempo que nos separa

    é o que mais nos aproxima.”


  • Conheci este cantor

    escreve Mozart Pereira

    quando abre-lhe a porteira

    do potreiro pro leitor.

    Também guardo este “honor”;

    igualmente o conheci.

    E com ele eu aprendi

    o que o mundo saberá:

    “Por longe que o homem vá

    nunca fugirá de si”


  • Há homens que nascem vento

    passam - passam, ninguém nota,

    mas os de bombacha e bota

    são feitos de sentimento.

    Por orgulho ao seu talento

    na pajada e na cantiga

    sempre ouço voz amiga

    a alardear com louvor:

    “Que conheceu um cantor

    daqueles da marca antiga.



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