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| Horizonte Largo
Por Paulo de Freitas Mendonça *
A
poesia na letra
Desgarrados
de Sérgio Napp
Eles se encontram no cais do porto pelas calçadas,
Fazem biscates pelos mercados, pelas esquinas,
Carregam lixo vendem revistas, juntam baganas,
E são pingentes nas avenidas da capital.
Eles se escondem pelos botecos entre os cortiços,
E pra esquecerem contam bravatas, velhas histórias.
Então são tragos muitos estragos por toda noite,
Olhos abertos o longe é perto, o que vale é o sonho.
Sopram ventos desgarrados carregados de saudade,
Viram copos, viram mundos,
Mais o que foi, nunca mais será
Mais o que foi , nunca mais será.
Cevavam mate, sorriso franco, palheiro aceso,
Viravam brasas, contavam casos polindo esporas,
Geada fria, café bem quente, muito alvoroço.
Arreios firmes e nos pescoços lenços vermelhos.
Jogo do osso, cana de espera e o pão de forno,
O milho assado, a carne gorda e a cancha reta,
Faziam planos e nem sabiam que eram felizes,
Olhos abertos o longe é perto o que vale é os sonhos.
A letra da música vencedora da 11 ª edição da Califórnia da Canção Nativa
do Rio Grande do Sul, de Uruguaiana, festival mais importante da época
no Estado, Desgarrados, de autoria de Sérgio Napp, musicada e originalmente
interpretada por Mário Barbará, está carregada de poesia, embora poeta
que a compôs julgue que não exista poesia em letra de música.
Esta afirmação de impossibilidade de existência de poesia na letra de
música talvez seja pelo fato da poesia ser tão pulsante na mente do
poeta que ele não se contente com apenas algumas imagens de linguagem,
querendo sempre mais, o que é singular dos grandes autores. Mesmo os
mais expressivos vates podem ser contestados, especialmente quando for
para uma análise literária científica de sua obra. Massaud Moisés afirma
que o verso pode ter qualquer tipo de informação, com poesia ou não.
Já Aristóteles define que o poema, o que aqui podemos transferir para
letra, é concreto, já a poesia é abstrata.
O estro de Napp, já na primeira estrofe possui em seu desfecho uma imagem
poética original e precisa [E são pingentes nas avenidas da capital.]
Ora, pingente, os mais respeitados dicionários definem como o brinco
pendente ou outro objeto que pende em forma de brinco. No ditado popular
associa-se à pessoa que viaja de trem ou outro veículo, pendurado pelo
lado de fora.
Neste último verso, o poeta vale-se de uma metáfora que dá liberdade
ao leitor/ouvinte fazer sua interpretação particular. Ele pode enteder
que o desgarrado seja alguém que circula nas avenidas da capital sem
ser notado em sua pobreza, como algo que estivesse pedurado à avenida,
fazendo parte dela, mas discretamente fora do seu contexto geral de
metrópole, um homem do campo distante de seu habitat. Pode também o
leitor/ouvinte entender que o poeta utilizou-se de uma alegoria literal
do linguajar popular, afirmando que o desgarrado ao ser visto como imagem
distinta da sua anterior no campo passe a impressão de que não ostentaria
condições financeiras para chegar dignamente à capital. Ou ainda, para
uma pessoa mais otimista, diante da saga desenhada pelo autor, pode
e entender que ele tenha tentado definir o desgarrado como uma joia
rara distinta, mas que enfeita a avenida da capital.
Na segunda estrofe o autor beneficia-se da sonoridade das palavras,
valendo-se das rimas coroadas utilizando-se de hipérbole e metonímia,
quando define os desgarrados. [Então são tragos muitos estragos por
toda noite, ].
No desfecho da segunda estrofe, o vate, ainda utilizando a preciosidade
da rima coroada, vale-se de antítese [Olhos abertos o longe é perto,
o que vale é o sonho.], ao definir o sonhar acordado.
A seguinte estância da letra é poética a exaustão, é extremamente alégorica,
uma sequência de metáforas. [Sopram ventos desgarrados carregados de
saudade,].Expressa metáforas em metonímia e anáfora [Viram copos, viram
mundos,] e encerra com a antítese [Mais o que foi, nunca mais será].
As últimas duas estrofes da letra joga magistralmente com tropos numa
espécie de antítese ao desnudar a realidade do desgarrado que deixa
para sempre os usos e costumes rurais e sua vida supostamente farta.
O verso [Geada fria, café bem quente, muito alvoroço.] na penúltima
estrofe, exprime claramente oposição. Já a última estrofe segue definindo
os usos e costumes relegados e encerra com com o verso derradeiro da
segunda estância, já analisado, mas que neste local da letra passa a
ter mais significado porque desfecha com a conclusão de que sempre haverão
pelas avenidas da capital os desgarrados em busca de seu sonho, apesar
do sofrimento a eles imposto pela metrópole, tão distinta do campo em
todos os signos. Além disso, a obra dá a entender em suas entrelinhas
de que eles mesmos não possuem a consciência de sua condição (sub)humana.
As figuras de linguagens desta letra, associadas a bela melodia e sua
interpretação, são as responsáveis pelo sucesso da obra, que teria tudo
para ser boicotada pelo tradicionalismo gaúcho que prega a imagem do
gaúcho ideal. Todavia, sua qualidade poética dá legitimidade à letra
que dilui esta barreira ideológica e passa a ser reconhecida como uma
das grandes obras do cancioneiro gaúcho, oriunda do movimento nativista.
Como diz René Valz, o poeta expressa-se por imagem e Ribolet é enfático
ao afirmar que arte sem imaginação é fotografia da realidade. Na letra
em questão, o autor, por expressar-se por imagens e ter inspiração repleta
de imaginação, pinta o retrato da (triste) realidade dos desgarrados
com poesia, o que serve de oposição a uma afimativa do nobre versejador
de que poesia na letra inexista.
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Tributo ao Pajador
Pela passagem dos doze anos de desencarne do pajador missioneiro Jayme
Caetano Braun, dia 08 de julho, entrego estas humildes décimas que improvisei
no programa do Glênio Reis há quase uma década, citando alguns títulos
de sua obra. As gravações nos permitem recuperar emoções.
O bochincho deu-lhe fama
a pajada me fez fã.
O verso tal qual tajã,
emplumado pentagrama.
Arte mágica conclama
o poeta à boemia.
É o vôo de energia
nas noites enluaradas,
para pousar nas pajadas,
improvisadas no dia.
Foi De Fogão em Fogão
que tornou-se o pioneiro
para domar De Primeiro
o mais xucro redomão.
E com Botas de Garrão,
abre cancha e bate cachos,
pois num Potreiro de Guaxos,
bem num costado de cerro,
meio À Moda Martín Fierro,
seus versos já nascem machos.
Quantas Paisagens Perdidas
do Pajador e Troveiro.
Seu entono Missioneiro
merecia muitas vidas.
Nas chegadas e partidas
de Cabral e de Vespúcio
o pajador é um Confúcio
de xucra filosofia.
Mostra à pampa bravia:
Pajada do Negro Lúcio.
Reescreve o prefácio
pajando rude arpejo,
Filosofia de Andejo
dá voz ao Tio Anastácio,
ao Cho-Égua, ao Bonifácio,
aos tropeiros e às prendas
de pulperias e vendas.
Aos do Galpão de Estância,
Rima contra a ignorância:
Pátrias, Fogões e Legendas.
O Vento e o Pajador
são iguais, são infinitos.
Da terra Nasceram Gritos
e Charlas de Domador.
Remorsos de Castrador
que castra e marca por farra.
Ambos são como cigarra,
melodias do pampeiro.
Gaita, Cordeona, Gaiteiro
Pajador, Pampa, Guitarra.
Alma Pampa Sem Diploma
Prece, Geadas, Destinos;
uruguaios e argentinos
sem diferença de idioma
e o brasileiro que soma,
com Paisagens Missioneiras.
Por não querer mais fronteiras,
bem antes do Mercosul,
já canta a união do sul:
Milonga de Três Bandeiras.
Sou seu aluno confesso.
É o que eu Quisera Ter Sido.
Deus atende Meu Pedido
Por isso nada mais peço.
Nesta Evocação expresso
com Meu Canto campechano,
a Dom Jayme Caetano
a gratidão que nos salva
e entrego à Estrela Dálva
este chasque pampeano.
Dou a Última Clavada
do Paraíso Perdido
simplesmente agradecido
ao patrono da pajada,
mas tudo na vida é nada
sem Guitarra e sem poesia.
Ao pajador pediria:
reserve um terreno azul
que o Brasil Grande do Sul
deixo, Talvez Algum Dia.
Se Deus diz: Está na Hora
de haver Silêncio e Luz,
No Corredor, Uma Cruz
há de ficar campo afora.
Eu apeio, sem demora,
do mesmo jeito, altivo.
Pois nesse Galpão Nativo
dois tauras hão de matear
e Do Tempo vão de zombar
sem ter Chimarrão do Estrivo.
Morre Rodolfo Jiménez, se eterniza Argentino Luna
O meu particular amigo, Rodolfo Jiménez “El Negro”, conhecido e reconhecido
como Argentino Luna, faleceu na Clínica Favaloro, em Buenos Aires, na
noite de sábado, dia 19 de março de 2011, aos 69 anos de idade e 45
de carreira artística. Ele estava hospitalizado havia um mês, tratando
de uma enfermidade gastroentestinal. Chegou a ser operado numa cirurgia
delicada.
Natural de Madariaga, na Província de Buenos Aires, Argentino Luna é
considerado um dos maiores representantes da música sureña argentina.
Era consagrado não somente na Argentina, mas também no Uruguai, Brasil,
Paraguai e outros países latino-americanos e da Europa. Foi condecorado
com importantes comendas, a exemplo do Condor de Fuego, Limon de Oro,
Gardel de Oro, Charrua de Oro y Palma de Plata, entre outras.
O cantor, natural de Madariaga, deixa 05 filhas de seus dois casamentos.
Gravou mais de trezentas músicas, dentre as quais uma em parceria com
Jayme Caetano Braun, "Tres Gauchos". Muitos são os seus sucessos:
"Zamba Para Decir Adiós", "Mire Qué És Lindo Mi País
Paisano", "Pero El Poncho No Aparece", "Me Preguntan
Cómo Ando", "Malevo", "Así Cantó Madariaga",
"En Cosquín Están Cantando", "Uno Nunca Entiende",
"A Mercedes Sosa", "Hijo, No Te Preocupes", "La
Razón De Mi Canto", "Desde El Recuerdo Te Canto", "Ando
Por La Huella", "Capitán De La Espiga", y "Hoy Función
Guitarra y Canto", entre tantos outros.
Argentino Luna não é reconhecido como pajador na Argentina, como se
noticia equivocadamente aqui no Brasil, como um dos representantes do
canto pajadoril, desde quando improvisou com Jayme Caetano Braun. É
sim, consagrado como cantor, compositor e guitarreiro sureño. Mas como
a maioria dos cantores crioulos rio-pratenses conhece a estrutura da
décima, alguns arriscam improvisos, o que não quer dizer que sejam reconhecidos
como tal. Tanto que, em 2009, quando Luna apresentou ao público de Cosquim,
o jovem pajador da cidade de Rojas, Nicolás Membriani, soltou esta décima,
aqui traduzida por mim.
Se eu fosse pajador
tu sabes que eu não sou
mas irmão onde estou
vou cobrando este valor
tão somente sou cantor
porque este cantar alaga
é fogo que não se apaga
meu irmão, se não te “enojas”
você tem lembrado a “Rojas”
e eu lembro a Madariaga.
Todavia o fato de não ser pajador não tira nada do valor deste grande
artista para música campeira do sul da América.
Conheci pessoalmente Argentino Luna no início da década de 80, quando
tive o privilégio de apresentá-lo a Jayme Caetano Braun e vice-versa.
Ambos eram fãs um do outro sem nunca estar frente a frente. Os dois
improvisaram no palco do Teatro da Ospa, em Porto Alegre, num espetáculo
importante da época, chamado Canto Sem Fronteira. Fui também, no palco,
o apresentador deste magistral encontro.
Depois disso, dividimos outros palcos, a exemplo do Te-Déum de Pajadores
da América Latina, em Passo Fundo.
Lembro que no ano de 2002, quando fui honrado com o Troféu Condor de
Fuego, na Argentina, Luna era um dos homenageados. Quando foi chamado
seu nome, o público que lotava a platéia e os camarotes do Teatro na
cidade de Magdalena, cantou à capela uma de suas canções, Mire que és
Lindo Mi País Paisano, enquanto ele se deslocava do seu lugar até o
palco.
A última vez que nos encontramos foi em março do ano passado, quando
participei do 29º Encontro Santosvegano de Pajadores, em San Clemente
de Tuyu. Luna fez o espetáculo especial do encontro. Estivemos no mesmo
palco e dividimos o camarim. Proseamos algum tempo e rimos bastante.
Ele sempre foi muito gentil com seus amigos e carinhoso com seu público.
Era um artista espetacular, compositor de grande inspiração e um homem
do bem, preocupado com as questões sociais.
Lamento os impasses familiares que causaram desconforto entre os amigos
que não puderam despedir-se do colega e o público, do seu ídolo.
Segundo o jornal Cronica, as filhas do primeiro casamento teriam dito
que naquele momento não havia mais o Argentino Luna e sim o Rodolfo
Jiménez. Com este argumento teriam impedido amigos, artistas, produtores
e público de visitar o local do velório.
Segundo este mesmo jornal, o irmão de Luna, Lino Jiménez, também demonstrava-se
indignado e teria dito que suas sobrinhas e seus respectivos maridos
estão mortos para ele, pois o impediram de levar o corpo do cantor para
Madariaga, onde estão enterrados seus pais e seus irmão falecidos.
A viúva Silvina, que viveu com Argentino Luna os últimos dez anos e
com ele teve uma filha, estava constrangida. Ela e a filha, Karen, teriam
sido proibidas de se aproximar e ter contato com o corpo do seu ente
querido.
O irmão de Luna, Lino Jiménez, afirma que as quatro filhas estão bem
amparadas com apartamentos próprios e que quando Luna ficou viúvo lhes
teria dado tudo. Indiganado, acusa: “Até o cremaram para não ter gastos
futuros com ele."
Os produtores do cantor e os amigos do homem-civil também teriam sido
barrados no velório.
Em Madariaga, cidade natal do cantor, foi encomendada pelo intendente
local e o irmão de Luna, uma missa em homenagem ao filho ilustre. Há
quem já fale em erigir um monumento em honra ao "Gaucho de Madariaga"
Argentino Luna não merecia esta inconveniente despedida. Era um artista
querido não só no seu país. Sempre cantou sua gente, sua pátria e inclusive
suas filhas, em suas belas canções.
"Filha. Seu eu cair no caminho - a morte é uma rodada- Filha, uma
coisa te peço, cuide bem da minha guitarra. [..] com ela vesti teu corpo,
pintei de branco tua casa, com ela te comprei um livro para abrir-te
uma janela [...] Não chores quando eu for. Pensa que eu fui de viagem,
com um livro e a guitarra e que tardarei a voltar porque esta gira é
mui longa. Se queres rezar por mim, filha, canta, canta... A ausência
é menos ausência com uma copla na alma. Ao partir te peço pouco, melhor
dito, quase nada. Filha tão somente peço que cuide bem da guitarra."
(Palavras Para Milha Filha)
Pelo visto, se Karen não ficar com a guitarra do pai, nem este desejo
lhe vai ser atendido.
Estavam duplamente enganadas as pessoas que teriam afirmado que Argentino
Luna não existia mais e sim o Rodolfo Jiménez. Quem desencarnou foi
Rodolfo Jiménez, Argentino Luna é eterno. O artista não morre, não se
crema, não se enterra, porque ele transcende no tempo. Ele é a sua obra.
Nós, os seus amigos, perdemos a presença física de Rodolfo Jiménez,
mas nós mesmos, os seus fãs, teremos sempre a presença artística de
Argentino Luna, através de suas canções e poemas, cheios de mensagens
de otimismo e de amor à terra.
Os Pajadores
São dois palanques plantados,
dois esteios de porteira
para a tropa guitarreira,
dois versos improvisados.
Dois olhares concentrados
numa paisagem distinta.
Um pinta, outro repinta
seu perfume sobre a tela
com a fragrância mais bela
do encanto que alma sinta.
São dois lados de um assunto
como quem a tropa encerra
voz no céu e pés na terra
num precioso contrapunto,
num confronto adjunto
pra formar seu universo.
São o verso e o reverso
de tão sublimes visões.
São frutos de inspirações.
São filhos do próprio verso.
São tauras de alma bravia
dois gaúchos na estampa
São dois pedaços do pampa
no perfil e na poesia.
São rimas, filosofia,
improvisos e patriadas.
São guitarras afinadas,
verseadores em repecho.
São o enlace e o desfecho
de tão magistrais das pajadas.
* Jornalista, pajador e apresentador
pajador_mendonca@hotmail.com
A PARTE NÃO É O TODO
Peço, antes que comece
este meu verso teatino,
permissão, porque opino
com razão de quem conhece:
nem tudo o que se parece
é o que possa parecer.
Quem só de fora quer ver
pode cair no engodo
A parte não é o todo,
embora pareça ser.
Por conhecer bem a parte
e os seus desmembramentos,
afirmo aos quatro ventos
um saber que se comparte:
cultura não é só arte
que reproduz o viver.
Cultura faz renascer
o genuíno com denodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.
Tradição é uma herança
de valor espiritual.
Legítima e cultural,
é o fiel da balança.
Alicerce da esperança
do porvir a florescer,
mas se a gente adormecer
o futuro passa o rodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.
Sei, com alma guitarreira,
sopro não é assovio.
Nem toda fronteira é rio,
nem todo rio faz fronteira.
A gota, uma água inteira,
noutra, vai se desfazer.
Pouca, lodo vai fazer,
mas se muita, lava o lodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.
A imagem não é o fato
do qual ela se estrutura,
tampouco a nomenclatura
pode ser dona do ato.
A voz não é o relato
do que pretende dizer.
Não se admite entender
gaúcho qual um apodo.
A parte não é o todo,
embora pareça ser.
DE ANDAR
Fronteira é uma divisa
imaginária, ilusória,
cada vez menos notória,
cada vez mais imprecisa
quando a alma poleniza
na flor da paz fraternal.
A fronteira é um sinal
que na verdade inexiste
ante o amor que persiste
na pátria espiritual.
O homem nasce pra andar
pelos caminhos difusos
integrando atos, usos
e sua forma de pensar.
O jeito de se postar
expressa suas verdades
e atrai como amizades
os que encontra por aí:
são reflexos de si
em suas afinidades.
O HOMEM
Mote:
A alma é emoção.
O corpo é o que come.
A consciência é a que vê.
O homem é o sobrenome.
Glosa:
A alma faz soprar brasa.
A alma é sobressalto.
A alma faz voar alto.
A alma é feita de asa.
A alma faz sua casa.
A alma é coração.
A alma faz sem razão.
A alma é água pura.
A alma faz a cultura.
A alma é emoção.
O corpo quer atitude.
O corpo é paz e calma.
O corpo quer leve alma.
O corpo é plenitude.
O corpo quer juventude.
O corpo é o que some.
O corpo quer não ter fome.
O corpo é natureza.
O corpo quer pôr à mesa.
O corpo é o que come.
A consciência impõe limite.
A consciência é a razão.
A consciência impõe noção.
A consciência é quem permite.
A consciência impõe palpite.
A consciência é a que lê.
A consciência impõe e crê.
A consciência é o meio.
A consciência impõe o feio.
A consciência é a que vê.
O homem vive sua vida.
O homem é criatura.
O homem vive à fartura.
O homem é sem guarida.
O homem vive na lida.
O homem é o seu nome.
O homem vive e consome.
O homem é quem escolhe.
O homem vive ou se encolhe.
O homem é o sobrenome.
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Aos Meus Irmãos
Aos irmãos de continente
de pulsação e energia,
de pátria e de poesia,
de alma e subconsciente,
de respeito mutuamente,
sempre que posso me irmano
porque aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
Irmãos de abraço e sorriso
ou de aperto de mãos,
sendo ou não concidadãos
ou parceiros de improviso,
nada é tudo que preciso
para encontrar um hermano
por que aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
Irmãos de além fronteira
ou daqui, do dia-a-dia.
Independe a geografia
se amizade é verdadeira.
Sendo a alma é bem campeira
bato versos mano a mano.
Por que aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
Meus irmãos, quero brindar
aos de mate e cantiga,
parceiros de prosa amiga,
ou então os de além mar
com quem quero me encontrar
nem que seja ano a ano
por que aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
Meus irmãos desconhecidos
por estas tantas querências
sei de suas existências
por instinto e por sentidos.
Jamais serão esquecidos,
pois a ninguém eu engano
por que aqui neste plano,
excetuando o Criador,
nada possui mais valor
que a alma do ser humano.
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O Chamamé
Chama-me sempre de amor
que a todo bem é capaz.
Senão, chama-me de paz
que é alva mais linda cor.
Chama-me de sonhador,
que quer a todos igual.
Chama-me de fraternal,
que é puro de coração.
Chama-me então de canção
de uma terra sem mal.
Chama-me de alegria
que é benção do eterno Pai.
Chama-me de sapukay
que é explosão de energia.
Chama-me de melodia
que põe a alma de pé.
Chama-me de terra e fé
por eu ser asa e semente.
Chama-me de voz e gente:
Chama-me de Chamamé.
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A Suprema Paz
A paz é mais que um evento,
sutil em sua unidade.
Possui mais diversidade
que da terra ao firmamento.
A paz de estacionamento,
por plasmada, nada faz,
ensimesmada lhe apraz
beber do egocentrismo.
Por ser paz de egoísmo
Não é a suprema paz.
A paz de quem não agride
com falso olhar sereno,
por não judiar do pequeno
se julga grande e regride.
Pela empáfia não progride,
pois tem ganância mordaz.
Dança a vaidade fugaz
na guerra embaixo dos panos,
sendo paz de ares profanos
Não é a suprema paz.
A paz falsa que consola
pondo-lhe a mão na cabeça.
Ao contrário que pareça
produz falácia e enrola,
num discurso que controla
a inocência que ali jaz.
É uma paz incapaz
de acalmar alheia dor.
Por ser de esfera inferior,
Não é a suprema paz.
A paz trançada em tratados,
em contrato ou carta régia,
é uma paz de estratégia
com dois lados deformados.
É paz dos desesperados
que são guerreiros, aliás,
com rastros de sangue atrás,
apenas cessam as mortes
Paz de interesse dos fortes
Não é a suprema paz.
A paz por necessidade
por revanche do vencido
é algo tão sem sentido,
foge a razão da verdade.
É paz sem cumplicidade
que um passo em falso a desfaz.
Logo a guerra se refaz
em sua arte tão ágil.
Por ter fundamento frágil,
Não é a suprema paz.
Paz de interesse vulgar,
gesto de falso cortês,
salgada de insensatez
é gota doce no mar.
Mistura-se ao seu azar
e por mais que seja audaz
torna-se ineficaz
de vestir-se em cortesia.
Por ser paz de antipatia
Não é a suprema paz.
A paz de estar solito
no meio da multidão
ou de arder em solidão
em seu recinto restrito.
É paz que sufoca o grito
da realidade vivaz.
Por sonhador contumaz,
se torna um auto-recluso.
Por ser a paz de um confuso,
Não é a suprema paz.
A paz de grande festejo
só vestida de aparência
é uma paz sem consciência
de destorcido desejo.
Rolam moedas ao tejo
na extravagância voraz.
Quase ninguém é capaz
de conter farto consumo.
Por embriagar seu rumo
Não é a suprema paz.
Paz de alardes frenéticos
de falatórios inúteis
com protagonistas fúteis
e resultados patéticos,
atropela atos éticos,
mostra vistoso cartaz,
porém quem é perspicaz
pouca atenção lhe demanda,
porque a paz de propaganda
Não é a suprema paz.
Contudo, a paz de verdade
tem sopros de onipotência,
de compreensão, clemência,
fé, justiça e caridade,
de infinita bondade,
de servidor pertinaz,
de amoroso tenaz,
vendo a todos como seus.
Só a paz que vem de Deus
É sim, a suprema paz.
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Disse Dom Jayme Caetano
Lembro Dom Jayme Caetano,
o pajador missioneiro,
como um pajé feiticeiro
do xucro verso pampeano.
Quando esteve nesse plano,
disse ao Pago muito bem:
“Às vezes quem nada tem
é aquele que melhor vive,
quantas fortunas eu tive
sem nunca ter um vintém.”
Menestrél iluminado,
do nosso tempo, um Homero,
que teve um cantar sincero
do presente e do passado.
Disse que o Patrão sagrado,
em sua sabedoria,
“deu o canto e a melodia
para os pássaros e os ventos
pra que fossem complementos
do que chamamos poesia”
Fez um relato preciso,
em sua crioula leitura,
que Deus fez criatura
que expulsou do paraíso.
Arrematou d’improviso
com este verso bonito:
“O homem nasce de um grito
e a morte é tão silenciosa
na passagem misteriosa
que apaga nosso infinito”
Poeta e pajador,
o crioulo das missões,
fazia interpretações
do gaúcho campeador,
desde o de fino teor
ao taura da casca grossa:
“Que bárbara a raça nossa,
vejo quando examino,
as origens do teatino
que o chimarrão não adoça”
De-a-cavalo na experiência
que lhe forjou a estatura
num manancial de cultura,
interrogando à existência.
E por ter buena consciência,
disse com sinceridade:
“Aprendi na mocidade
algo que ninguém me tira,
que não há meia mentira,
tampouco meia verdade.”
Por isso tem a certeza
que nada é ultrapassado,
porque tudo está ligado
nas teias da natureza.
Nos explica com clareza
a força da auto-estima:
“Há uma lei que vem de cima
na estrada do tapejara:
- o tempo que nos separa
é o que mais nos aproxima.”
Conheci este cantor
escreve Mozart Pereira
quando abre-lhe a porteira
do potreiro pro leitor.
Também guardo este “honor”;
igualmente o conheci.
E com ele eu aprendi
o que o mundo saberá:
“Por longe que o homem vá
nunca fugirá de si”
Há homens que nascem vento
passam - passam, ninguém nota,
mas os de bombacha e bota
são feitos de sentimento.
Por orgulho ao seu talento
na pajada e na cantiga
sempre ouço voz amiga
a alardear com louvor:
“Que conheceu um cantor
daqueles da marca antiga.
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