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| Mala de Garupa
- Dos festivais nacionais de MPB ao surgimento do Nativismo Gaúcho
O surgimento do Nativismo está associado à criação da Califórnia
da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, na cidade de Uruguaiana,
em dezembro de 1971. É de conhecimento geral a existência de outro
festival do gênero em Porto Alegre antes desta data, mas ele não
permanece no calendário cultural.
A Califórnia da Canção Nativa surge através do CTG Sinuelo do Pago,
em virtude de uma polêmica sobre a letra de uma música de Colmar
Duarte em relação a um festival de música popular brasileira.
A época é de grande movimentação cultural no país, em contraponto
a censura, fruto da ditadura militar.
Os grandes festivais de música popular brasileira transmitidos pela
televisão em rede nacional movimentam a cena cultural do país.
O Festival Nacional de Música Popular Brasileira, promovido pela
TV Excelsior de São Paulo, tem sua primeira edição em 1965 e a segunda
em 1966, o Festival da Música Popular Brasileira, promovido pela
TV Record de São Paulo, tem quatro edições, em 1966, 1967, 1968
e 1969, o Festival Internacional da Canção (FIC), em sua fase nacional,
tem sua primeira edição realizada no Rio de Janeiro, inicialmente
promovido pela TV-Rio (I FIC) 1966, e em seguida pela TV Globo nas
outras seis edições até o ano de 1972 e o Festival Universitário
de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Tupi, no de 1968,
servem de exemplo para o surgimento de inúmeros festivais nas mais
diversas cidades brasileiras. Todavia, todos tratam da música popular,
em geral não considerando a música regional como tal.
Em Uruguaiana não é diferente, a valorização do que soa como brasileiro
sobrepõe o sotaque gaúcho ou local. Isto causa certa indignação
num grupo de pessoas que cria um festival onde a cultura eminentemente
gaúcha possa estar contemplada.
A Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul abrange o estado
e dá voz a um elenco de excelentes compositores até então sem palco.
Na primeira edição concorrem Colmar Duarte e Julio Machado da Silva
Filho (vencedores), Carlinhos Castilhos, Telmo de Lima Freitas,
Leonardo (Jader Moreci Teixeira), Apparício Silva Rillo, Jose Lewis
Bicca, João Batista Machado e Paulinho Pires, entre outros.
Nas edições seguintes aparecem novos compositores e intérpretes,
consagrando nomes que hoje são símbolos do nativismo, a exemplo
de César Passarinho, Edson Otto, Leopoldo Rassier, Os Angueras,
Marco Aurélio Vasconcelos, Os Posteiros, Fátima Gimenez, José Cláudio
Machado, Victor Hugo, Mário Barbará, Sérgio Napp, Maria Luiza Benitez,
Knelmo Alves e tantos outros.
Após a Califórnia, surgem a Vindima em Flores da Cunha e a Ciranda
em Taquara (1972). Na década de 80 há um verdadeiro turbilhão nativista
com Tertúlia em Santa Maria e Festival da Música Crioula de Santiago
(1980) Coxilha em Cruz Alta e Seara em Carazinho (1981), Reculuta
em Guaíba, Tropilha em Ajuricaba, Carreta em Passo Fundo e Vigília
em Cachoeira do Sul (1982), Reponte em São Lourenço, Musicanto em
Santa Rosa e Gauderiada em Rosário do Sul (1983), Serra Campo e
Cantiga em Veranópolis, Canto Nativo de Santo Augusto, Acampamento
de Campo Bom (1984), Comparsa da Canção em Pinheiro Machado (1985),
Carijo em Palmeira das Missões, Grito do Nativismo em Jaguari, Ponche
Verde em Dom Pedrito, Ronco do Bugio em São Francisco de Paula,
Primavera do Canto Xucro em Caxias do Sul (1986), Moenda em Santo
Antônio da Patrulha, Bordoneio do Canto Ibiá em Montenegro e Vertente
em Piratini (1987) e tantos outros.
Os jovens aderem a “nova” música do Rio Grande do Sul. Começam a
vestir a indumentária gaúcha e adotar o chimarrão como a bebida
preferencial nos momentos de lazer em público. Fica registrado o
momento em que a juventude gaúcha passa a frequentar praças, parques
e avenidas das grandes cidades com os aparatos tradicionais, até
então relegados aos moradores rurais.
Na década de 90 proliferam os festivais de poemas com Chasqueada
em Santana do Livramento, Sesmaria em Osório, Bivaque em Campo Bom,
Seival em São Lourenço do Sul, etc...
No ano de 1999 surge em Sapucaia do Sul o primeiro festival de pajada,
Pajada Jayme Caetano Braun, seguido pela Pajada da Feitoria em São
Leopoldo. Em 2001 cria-se o Encontro de Pajadores em Porto Alegre,
que agora acontece em Bento Gonçalves.
Atualmente o nativismo transcende a música. Engloba também poemas,
poesia improvisada, artes plásticas e até o teatro embarca no tema.
Antes da California
Livro Tendo havido um festival antes da Califórnia da Canção, comprova
que os anseios nativistas não estão somente na fronteira oeste.
Tampouco o nativismo existe somente nos festivais. Um movimento
musical do gênero conta com seus precursores, antes do festival
de Uruguaiana. Alguns artistas atendem ao chamado imediato da Califórnia
e os demais festivais surgidos em seguida. Outros não se inserem
nos festivais, mas são células importantes na concepção do nativismo.
Cantores e compositores como Glênio Fagundes (foto), Noel Guarany,
Paulo Portela Fagundes, Luiz Menezes, Barbosa Lessa, Paulinho Pires,
Simão Goldman, Pratini, Airton Pimentel, Glauco Saraiva, Jayme Caetano
Braun, Luiz Teles, Paulo Ruschel, José Mendes, Nei Messias, Paixão
Côrtes, Dimas Costa e outros já estão produzindo o que depois se
chama de nativismo, antes de 1971.
Mesmo depois do surgimento dos festivais nativos, aparecem artistas
que fazem carreira, tornando-se ícones do movimento sem concorrer
nos festivais ou com pequena participação, a exemplo de Pedro Ortaça,
Cenair Maicá, Mano Lima, Vitor Ramil, Gilberto Monteiro, entre outros.
Para finalizar esta análise de anterioridade, o Festival da Barranca,
ainda vigente, é anterior a Califórnia.
A pajada no contexto do nativismo gaúcho
A pajada é uma das mais antigas manifestações do nativismo gaúcho
e ao mesmo tempo a mais jovem arte reconhecida pelo tradicionalismo.
É anterior ao ciclo dos festivais. Ganha notoriedade no gauchismo
através de Jayme Caetano Braun a partir do ano de 1958, quando do
segundo Rodeio de Poetas da Estância da Poesia Crioula, na cidade
de Caxias do Sul.
Já é vigente enquanto arte nativa através dos magistrais versos
do pajador missioneiro, quando surge a Califórnia da Canção, mas
o MTG somente a reconhece como arte tradicional do Rio Grande do
Sul em 2001, através de uma proposição no Congresso Tradicionalista
e sua regulamentação na Convenção Tradicionalista.
A pajada é uma forma de improviso do Rio Grande do Sul, em estrofes
de décimas espinelas, acompanhada por instrumento de cordas, viola
para o pajador histórico e violão para o pajador contemporâneo.
Enquanto arte genuinamente rio-grandense é encontrada no período
farroupilha (1835-1845). Como arte contemporânea ela tem seu renascimento
na inspiração de Jayme Caetano Braun e ganha continuidade através
de seus seguidores, Arabi Rodrigues, Paulo de Freitas Mendonça,
José Estivalet, Jadir Oliveira, Pedro Junior da Fontoura, Albeni
Carmo de Oliveira, Adão Bernardes, Vanderlei Rosa, Leôncio Severo,
João Barros, Celso Oliveira, Volnei Correa, Macedinho, Jadir Oliveira
Filho e outros novos pajadores, surgidos especialmente no primeiro
festival do gênero, a Pajada Jayme Caetano Braun, da cidade de Sapucaia
do Sul, a partir do ano de 1999.
Após o ano de 2001 alguns dos principais rodeios do Estado passam
a realizar concursos de pajadas, mas não consegue revelar grandes
expressões da referida arte. É no nativismo que surgem novos pajadores
e a arte continua sendo mais reconhecida e apreciada.
Ela mantém uma interligação com o movimento mundial da poesia oral
improvisada, no qual alcança grande notoriedade e coloca o sul do
Brasil no mapa da improvisação internacional, continuamente representada
nos encontros ibero-americanos.
Os festivais de pajada no Rio Grande do Sul começam com o evento
já citado, em Sapucaia do Sul, porém antes dele acontece na cidade
de Passo Fundo no ano 1993 o Te-Déun de Pajadores da América Latina,
evento que realiza uma única edição, todavia registra em disco os
improvisos dos pajadores do Brasil, Uruguai e Argentina. Em 2000,
mesmo antes da promulgação da lei que cria o dia do Pajador Gaúcho
que só acontece em outubro do ano seguinte, começam os encontros
de pajadores em comemoração à data de nascimento de Jayme Caetano
Braun. Apesar de ser uma arte extremamente tradicional, ainda é
desconhecida de muitos no Rio Grande do Sul. É natural que quem
não conheça não goste, mas quem contata com ela se apaixona.
Títulos de Festivais de música, poema e pajada
Acampamento da Arte Nativa - Tapes
Acampamento da Canção Nativa - Campo Bom
Água da Sanga - São Jerônimo
Aldeia da Música do Mercosul - Gravataí
Aparte do Verso Xucro - Passo Fundo
Baquería de los Piñares - Vacaria
Barreoro da Canção - Bagé
Bateada da Canção - Lavras do Sul
Biquira da Canção Nativa - Rio Grande
Bivaque da Poesia Gaúcha - Campo Bom
Bordoneio do Canto Ibiá - Montenegro
Califórnia da Canção Nativa - Uruguaiana Candeeiro da Canção Nativa-
Restinga Seca
Canoa do Canto Nativo - Canoas
Cante uma Canção em Vacaria - Vacaria
Canto Alegretense da Canção Gaúcha- Alegrete
Canto ao Saladeiro - Quaraí
Canto da Lagoa - Encantado
Canto do Urutau - Rio Pardo
Canto do Sinos - São Leopoldo
Canto dos Cardeais - Canguçu
Canto dos Ervais - Palmeira das Missões
Canto Interuniversitário Rio-Grandense (CIRIO) - Pelotas
Canto Missioneiro - Santo Ângelo
Canto Molque - Candiota
Canto Nativo - Santo Augusto
Canto Paisano da Música Gaúcha - Pelotas
Canto Sem Fronteira - Bagé
Capela da Canção Nativa - Amaral Ferrador
Carijo da Canção Gaúcha - Palmeira das Missões
Carreta da Canção Nativista - Passo Fundo
Casilha da Canção Farrapa - Itaqui
Chamamento do Pampa - Passo Fundo
Charqueada da Canção Nativa -Pelotas
Chimarrão da Canção Missioneira - Coronel Bicaco
Ciranda Teuto-Rio-Grandense - Taquara
Colina da Canção Gaúcha - São João da Urtiga
Convenção Nativista - Júlio de Castilhos -
Comparsa da Canção Nativa - Pinheiro Machado
Coxilha Nativista - Cruz Alta
Coxilha Negra - Butiá
Eco dos Festivais - Tramandaí
Encantadas - Santana da Boa Vista
Escaramuça da Canção Gaudéria - Triunfo -
Esmeralda Canta Zé Mendes - Esmeralda
Estância da Canção Gaúcha - São Gabriel
Esteio da Canção Nativa - Esteio
Feitoria - São Leopoldo
Festival César Passarinho - Caxias do Sul
Festival da Barranca - São Borja
Festival da Música Crioula - Santiago -
Festival da Mata - Mata
Figueira da Canção - Porto Alegre
Galponeira - Bagé
Garimpo da Poesia Gaúcha - Soledade
Gauderiada da Canção Gaúcha - Rosário do Sul
Grito de Bravos - Lavras do Sul
Grito do Nativismo Gaúcho - Jaguari
Gruta Em Canto - Festival Nativista, Turístico e Ecológico -Nova
Esperança do Sul
Guyanuba da Canção Nativa - Sapucaia do Sul
Inúbia da Cantiga Nativa - Arambaré
Jerra da Canção Nativa - Santa Vitória do Palmar -
Laçador do Canto Nativo - Porto Alegre
Levante da Canção Gaúcha - Capão do Leão
Madrugada Nativista Missioneira - Santo Angelo
Manancial Arte e Cultura - Piratini
Manancial da Canção Crioula - Bagé
Manancial Missioneiro - Bossoroca -
Manoca da Canção Nativa - Santa Cruz
Minuano da Canção Nativa - Santa Maria e São Pedro do Sul
Moenda da Canção - Santo Antônio da Patrulha
Moinho da Canção Gaúcha - Panambi
Montenegro da Canção - Montenegro
Musicanto Sul-Americano de Nativismo - Santa Rosa
Musilabor - Porto Alegre
Onda da Canção Nativa - Imbé
O Rio Grande Canta o Cooperativismo- várias cidades
Pajada da Feitoria - São Leopoldo
Pajada Jayme CAetano Braun - Sapucaia do Sul
Pastoreio da Canção Gaúcha - Novo Hamburgo
Pátria da Poesia Crioula - Piratini
Payada - Arroio Grande - inativo
Pelota da /canção Gaúcha- Pelotas
Pesqueiro da Canção Nativa - Ijui
Ponche Verde - Dom Pedrito
Primavera do Canto Xucro - Caxias do Sul -
Querência do Bugio - São Francisco de Assis Querência da Poesia
Gaúcha - Caxias do Sul
Recanto da Canção - Porto Alegre
Reculuta da Canção Crioula - Guaíba
Reponte da Canção - São Lourenço do Sul -
Rio Grande Canta os Açores - Capão da Canoa
Ronco do Bugio - São Francisco de Paula
Ronda da Canção Nativa - Alegrete
Ronda de São Pedro - São Borja
Salamanca da CançãoNativa- Quaraí -
Sapukay da Canção Nativa - Santana do Livramento
Seara da Canção - Carazinho
Seival da Poesia Gaúcha - São Lourenço do Sul
Semeadura da Canção Nativa - Tupanciretã
Sentinela da Canção Nativa - Caçapava do Sul
Serra, Campo e Cantiga - Veranópolis
Sesmaria da Poesia Gaúcha - Osório
Sinuelo da Canção- São Sepé
Tafona da Canção Nativa - Osório
Tchê - Festival dos Festivais - Porto Alegre
Te-Deun de Payadores da América Latina - Passo Fundo
Terra e Cor da Canção Nativa - Pedro Osório
Tertúlia Musical Nativista - Santa Maria
Tropeada - Canto Poesia Trova e Pajada -Guaíba
Tropeada da Canção Nativa - Santana do Livramento
Tropeada do Verso Sulino - Caxias do Sul
Tropilha da Canção Nativa- Ajuricaba -
Tropilha Crioula - São Borja
Um Canto para Martin Fierro - Santana do Livramento
Vertente da Canção Nativa - Piratini
Vigília do Canto Gaúcho - Cachoeira do Sul
Vindima da Canção - Flores da Cunha
Vozes do Jacuí - São Jerônimo
FORA DO RIO GRANDE DO SUL
Fronteira da Canção Nativista - Concórdia - SC
Sapecada da Canção Nativa - Lages - SC
Nevada da Canção Nativa - São Joaquim -SC
Cante - Terra - Campo Mourão - PR
Pampa e Cerrado - Braília - DF
-
Jayme Caetano Braun, o mestre do improviso
Dez anos depois da sua morte, aos 75 anos, o inimitável pajador de
Bossoroca continua sendo reverenciado como um dos maiores artistas
do nosso tempo no Rio Grande do Sul e um homem que estava sempre disposto
a defender a cultura e os valores do gaúcho no palco ou longe dele
Ao completar uma década da morte do pajador Jayme Caetano Braun, o
frio parece o mesmo daquele 8 de julho de 1999, em Porto Alegre, numa
oposição poética ao calor do dia 30 de janeiro de 1924, quando nasceu
em Bossoroca. O pajador missioneiro foi divisor de águas na cultura
gaúcha e viveu seus 75 anos com dignidade e reconhecimento. Era poeta
comparável aos de fama nacional, mas seus versos ficaram presos entre
os horizontes do gauchismo. Foi o maior improvisador e um dos artistas
regionalistas mais aplaudidos de seu tempo. Contudo, a pajada somente
foi reconhecida oficialmente pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho
(MTG) dois anos após sua morte. Foi exército de um homem só
por 20 anos, quando começaram a surgir seus primeiros seguidores no
improviso, dentre os quais me enquadro. A pajada sobrevive graças
a Braun com sua força poética, persistência, defesa dos valores do
gaúcho, poder de oratória, postura artística e evolução espiritual.
Porque quando ele improvisava, as almas pré-colombianas convertiam
sóis e luas pro interior de sua voz. Seus versos campeiros, filosóficos
e de protestos possuíam luz transcendental.
Por isso sua poesia foi aplaudida e sentida, tornando-se eterna lança
a sublimar corações. Quando pajava, era o Rio Grande cantando. E,
entre uma estrofe e outra, se ao pensar fechava os olhos, recebia
imagens, transcritas pela linguagem em que a palavra era o ato. Porque
os versos removiam os escombros da injustiça, para quebrar o silêncio
dos ancestrais massacrados, para mostrar o repúdio ao sofrimento da
gente, aos desmandos dos governos e aos feitos ditatoriais que arrancaram
sangue e lágrima do povo brasileiro. Era dono de um raro dom, o de
reescrever a história e ser divisor do tempo. Tinha razão o poeta
Balbino Marques da Rocha que previu o calendário mudado na esfera
cultural gaúcha pra antes e após Braun.
Como todos no universo, em qualquer degrau do tempo, não teve unanimidade
da crítica com sua arte, porque cantava solito e resgatava dignamente
a tradição de seu povo, que a maioria pensante não sabia da existência.
Chegou a ser acusado de imitar castelhanos por ter aprendido a estrutura
da Décima Espinela com o poeta uruguaio Sandálio Santos (Nicácio Garcia
Beriso). Braun, na pujança de seus 34 anos de idade, estava resgatando
o improviso com instrumental de cordas, que hoje sabe-se é o princípio
desta arte dos tempos mais remotos no Rio Grande primitivo. Este canto
brasileiro esteve presente no período da Revolução Farroupilha. Há
registros bibliográficos sobre Pedro Canga (Pedro Muniz Fagundes),
Francisco Pinto da Fontoura, Delfina Benigna da Cunha, Francisco Xavier
Ferreira... E depois, a Décima Espinela seguiu no tempo com Manuel
Luís Osório, Manuel do Carmo (M. Pereira Fortes), Felix Contreiras
Rodrigues (Piá do Sul) e outros.
A pajada, resgatada por Braun, tem raiz cultural na herança lusa
da lírica medieval da baixa idade média, dos trovadores galaico-portugueses,
dos cantadores açorianos e também dos troveiros espanhóis. Ele não
o fez por acaso. Quando, em junho de 1958, protagonizou com Santos
sua primeira pajada, no 2º Rodeio de Poetas da EPC, em Caxias do Sul,
estava preparado. Havia presidido no ano anterior, assessorado de
Dimas Costa, João Pio de Almeida e Vasco Leria, a comissão de estudos
das correntes da poesia gauchesca do 1º Rodeio de Poetas. Esta comissão
tratou, entre outros temas, de pajadorismo, epigrama, vultos exponenciais
em cada época e corrente, e década Farroupilha. Por isso, conhecia
o caminho que trilhou com talento e sabedoria. Conquistou galpões
e palácios, analfabetos e literatos, velhos e jovens, o seu tempo
e o futuro.
É responsável pelo surgimento do Movimento Pajadoril Gaúcho e inspiração
para novos pajadores que alargam os horizontes do verso rio-grandense.
A nova geração de repentistas em décima do Rio Grande do Sul torna
realidade a integração das três pátrias pampianas, que tanto Braun
sonhou. Hoje há discos produzidos com pajadores do Brasil, Uruguai
e Argentina, e participações em encontros internacionais nestes países,
no Chile, na Venezuela, Espanha e Portugal. Seus seguidores levam
seu nome a estes e outros países, e hoje Jayme Caetano Braun é comparável
aos principais improvisadores e decimistas do mundo, como Índio Ñabori,
de Cuba, Carlos Molina, do Uruguai, e Miguel Candiota, da Espanha.
A nova geração de pajadores orgulha-se de poder divulgar o talento
de Braun, inclusive nos demais estados brasileiros, e já contabiliza
diversas atuações, especialmente no eixo Rio-São Paulo. É recebido
por seus seguidores como um aplauso póstumo, o fato de uma obra de
Braun abrir o CD da maior pesquisa sobre a poesia oral de improviso
do Brasil, chamada Na Ponta do Verso. Lançado no Rio de Janeiro, em
livro e CD, o trabalho é importante reconhecimento nacional aos novos
artistas do verso repentino gaúcho e ao pajador-dos-pajadores, como
o reverenciam seus discípulos.
Seu poder de transformar o mundo vai além da poética, improviso ou
tradicionalismo. Num país onde a maioria dos monumentos é de militares
e políticos, o pajador consegue mudar o cenário. É o único artista
que empresta o nome para um viaduto em Porto Alegre. É também exclusivamente
sua, a honra de haver três estátuas para o mesmo poeta no Rio Grande
do Sul (Porto Alegre, Passo Fundo e São Luiz Gonzaga). É o único homem
civil no Estado cujo nome próprio dá título a um festival: Pajada
Jayme Caetano Braun, em Sapucaia do Sul. Tem a data de seu nascimento
consagrada por lei como o Dia do Pajador Gaúcho.
Além dessas, há outras honrarias que não lhes são exclusivas, mas
também importantes, como a de ter seu nome na nomenclatura de entidades,
a exemplo do Galpão Jayme Caetano Braun, em Porto Alegre e CTG Jayme
Caetano Braun, em Brasília. Receber tributos dentro e fora do Rio
Grande, a exemplo da Semana Crioula do Prado, de Montevidéu, na qual
ele, um pajador argentino e outro uruguaio receberam homenagem póstuma,
formando a "Pátria Grande" com a qual sempre sonhou.
Por estas e outras razões, registrar a passagem de uma década da
morte de Jayme Caetano Braun, não é apenas reverenciar um vate inspirado,
um pajador magistral, um sábio da regionalidade ou o estro de um pensador
gaúcho. É contribuir para salvar do esquecimento esta parcela importante
da poesia oral improvisada brasileira, resgatada por ele e mantida
com obstinação. É alertar que a pajada é uma arte rio-grandense em
legítima contextura com as mais profundas raízes lusitanas, haja vista
que a poesia popular portuguesa, segundo Theophilo Braga, é mais antiga
que a espanhola. Além disso, é imprimir intrínseca intenção de romper
os grilhões que ainda insistem em cercear a cultura gaúcha em relação
a dos demais conterrâneos.
Porque somente depois disso nossos artistas deixarão de ser comparáveis
aos de reconhecimento nacional, o serão.
Este último artigo foi publicado no Caderno
de Cultura da Zero Hora em 04/07/2009 - de autoria de Paulo de Freitas
Mendonça. Os demais em diversas edições do Jornal do Nativismo, com a mesma autoria.
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Todos
os artigos desta coluna são de autoria de PAULO DE FREITAS MENDONÇA
- Jornalista e pajador. Em
caso de utilização de todo ou parte deles, favor dar crédito de
autoria. Caso contrário estará sugeito a penalizações da lei LEI
Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.
O
ideal é que conheça todo o conteúdo da legislação de direito autoral,
mas se preferir, leia estes dois artigos da referida lei:
- Art. 108. Quem, na utilização, por qualquer modalidade,
de obra intelectual, deixar de indicar ou de anunciar, como tal, o
nome, pseudônimo ou sinal convencional do autor e do intérprete, além
de responder por danos morais, está obrigado a divulgar-lhes a identidade
da seguinte forma:
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I - tratando-se de empresa de radiodifusão, no mesmo horário em
que tiver ocorrido a infração, por três dias consecutivos;
II - tratando-se de publicação gráfica ou fonográfica, mediante
inclusão de errata nos exemplares ainda não distribuídos, sem prejuízo
de comunicação, com destaque, por três vezes consecutivas em jornal
de grande circulação, dos domicílios do autor, do intérprete e do
editor ou produtor;
III - tratando-se de outra forma de utilização, por intermédio
da imprensa, na forma a que se refere o inciso anterior.
Art. 109. A execução pública feita em desacordo
com os arts. 68, 97, 98 e 99 desta Lei sujeitará os responsáveis
a multa de vinte vezes o valor que deveria ser originariamente pago.
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