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Jornal do Nativismo
Hoje é domingo, 26 de maio de 2013

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Mala de Garupa

 

 

 

 

  • Dos festivais nacionais de MPB ao surgimento do Nativismo Gaúcho

    O surgimento do Nativismo está associado à criação da Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, na cidade de Uruguaiana, em dezembro de 1971. É de conhecimento geral a existência de outro festival do gênero em Porto Alegre antes desta data, mas ele não permanece no calendário cultural.
    A Califórnia da Canção Nativa surge através do CTG Sinuelo do Pago, em virtude de uma polêmica sobre a letra de uma música de Colmar Duarte em relação a um festival de música popular brasileira.
    A época é de grande movimentação cultural no país, em contraponto a censura, fruto da ditadura militar.
    Os grandes festivais de música popular brasileira transmitidos pela televisão em rede nacional movimentam a cena cultural do país.
    O Festival Nacional de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Excelsior de São Paulo, tem sua primeira edição em 1965 e a segunda em 1966, o Festival da Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record de São Paulo, tem quatro edições, em 1966, 1967, 1968 e 1969, o Festival Internacional da Canção (FIC), em sua fase nacional, tem sua primeira edição realizada no Rio de Janeiro, inicialmente promovido pela TV-Rio (I FIC) 1966, e em seguida pela TV Globo nas outras seis edições até o ano de 1972 e o Festival Universitário de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Tupi, no de 1968, servem de exemplo para o surgimento de inúmeros festivais nas mais diversas cidades brasileiras. Todavia, todos tratam da música popular, em geral não considerando a música regional como tal.
    Em Uruguaiana não é diferente, a valorização do que soa como brasileiro sobrepõe o sotaque gaúcho ou local. Isto causa certa indignação num grupo de pessoas que cria um festival onde a cultura eminentemente gaúcha possa estar contemplada.
    A Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul abrange o estado e dá voz a um elenco de excelentes compositores até então sem palco. Na primeira edição concorrem Colmar Duarte e Julio Machado da Silva Filho (vencedores), Carlinhos Castilhos, Telmo de Lima Freitas, Leonardo (Jader Moreci Teixeira), Apparício Silva Rillo, Jose Lewis Bicca, João Batista Machado e Paulinho Pires, entre outros.
    Nas edições seguintes aparecem novos compositores e intérpretes, consagrando nomes que hoje são símbolos do nativismo, a exemplo de César Passarinho, Edson Otto, Leopoldo Rassier, Os Angueras, Marco Aurélio Vasconcelos, Os Posteiros, Fátima Gimenez, José Cláudio Machado, Victor Hugo, Mário Barbará, Sérgio Napp, Maria Luiza Benitez, Knelmo Alves e tantos outros.
    Após a Califórnia, surgem a Vindima em Flores da Cunha e a Ciranda em Taquara (1972). Na década de 80 há um verdadeiro turbilhão nativista com Tertúlia em Santa Maria e Festival da Música Crioula de Santiago (1980) Coxilha em Cruz Alta e Seara em Carazinho (1981), Reculuta em Guaíba, Tropilha em Ajuricaba, Carreta em Passo Fundo e Vigília em Cachoeira do Sul (1982), Reponte em São Lourenço, Musicanto em Santa Rosa e Gauderiada em Rosário do Sul (1983), Serra Campo e Cantiga em Veranópolis, Canto Nativo de Santo Augusto, Acampamento de Campo Bom (1984), Comparsa da Canção em Pinheiro Machado (1985), Carijo em Palmeira das Missões, Grito do Nativismo em Jaguari, Ponche Verde em Dom Pedrito, Ronco do Bugio em São Francisco de Paula, Primavera do Canto Xucro em Caxias do Sul (1986), Moenda em Santo Antônio da Patrulha, Bordoneio do Canto Ibiá em Montenegro e Vertente em Piratini (1987) e tantos outros.
    Os jovens aderem a “nova” música do Rio Grande do Sul. Começam a vestir a indumentária gaúcha e adotar o chimarrão como a bebida preferencial nos momentos de lazer em público. Fica registrado o momento em que a juventude gaúcha passa a frequentar praças, parques e avenidas das grandes cidades com os aparatos tradicionais, até então relegados aos moradores rurais.
    Na década de 90 proliferam os festivais de poemas com Chasqueada em Santana do Livramento, Sesmaria em Osório, Bivaque em Campo Bom, Seival em São Lourenço do Sul, etc...
    No ano de 1999 surge em Sapucaia do Sul o primeiro festival de pajada, Pajada Jayme Caetano Braun, seguido pela Pajada da Feitoria em São Leopoldo. Em 2001 cria-se o Encontro de Pajadores em Porto Alegre, que agora acontece em Bento Gonçalves.
    Atualmente o nativismo transcende a música. Engloba também poemas, poesia improvisada, artes plásticas e até o teatro embarca no tema.

    Antes da California

    Livro Tendo havido um festival antes da Califórnia da Canção, comprova que os anseios nativistas não estão somente na fronteira oeste. Tampouco o nativismo existe somente nos festivais. Um movimento musical do gênero conta com seus precursores, antes do festival de Uruguaiana. Alguns artistas atendem ao chamado imediato da Califórnia e os demais festivais surgidos em seguida. Outros não se inserem nos festivais, mas são células importantes na concepção do nativismo.
    Cantores e compositores como Glênio Fagundes (foto), Noel Guarany, Paulo Portela Fagundes, Luiz Menezes, Barbosa Lessa, Paulinho Pires, Simão Goldman, Pratini, Airton Pimentel, Glauco Saraiva, Jayme Caetano Braun, Luiz Teles, Paulo Ruschel, José Mendes, Nei Messias, Paixão Côrtes, Dimas Costa e outros já estão produzindo o que depois se chama de nativismo, antes de 1971.
    Mesmo depois do surgimento dos festivais nativos, aparecem artistas que fazem carreira, tornando-se ícones do movimento sem concorrer nos festivais ou com pequena participação, a exemplo de Pedro Ortaça, Cenair Maicá, Mano Lima, Vitor Ramil, Gilberto Monteiro, entre outros.
    Para finalizar esta análise de anterioridade, o Festival da Barranca, ainda vigente, é anterior a Califórnia.

    A pajada no contexto do nativismo gaúcho


    A pajada é uma das mais antigas manifestações do nativismo gaúcho e ao mesmo tempo a mais jovem arte reconhecida pelo tradicionalismo. É anterior ao ciclo dos festivais. Ganha notoriedade no gauchismo através de Jayme Caetano Braun a partir do ano de 1958, quando do segundo Rodeio de Poetas da Estância da Poesia Crioula, na cidade de Caxias do Sul.
    Já é vigente enquanto arte nativa através dos magistrais versos do pajador missioneiro, quando surge a Califórnia da Canção, mas o MTG somente a reconhece como arte tradicional do Rio Grande do Sul em 2001, através de uma proposição no Congresso Tradicionalista e sua regulamentação na Convenção Tradicionalista.
    A pajada é uma forma de improviso do Rio Grande do Sul, em estrofes de décimas espinelas, acompanhada por instrumento de cordas, viola para o pajador histórico e violão para o pajador contemporâneo. Enquanto arte genuinamente rio-grandense é encontrada no período farroupilha (1835-1845). Como arte contemporânea ela tem seu renascimento na inspiração de Jayme Caetano Braun e ganha continuidade através de seus seguidores, Arabi Rodrigues, Paulo de Freitas Mendonça, José Estivalet, Jadir Oliveira, Pedro Junior da Fontoura, Albeni Carmo de Oliveira, Adão Bernardes, Vanderlei Rosa, Leôncio Severo, João Barros, Celso Oliveira, Volnei Correa, Macedinho, Jadir Oliveira Filho e outros novos pajadores, surgidos especialmente no primeiro festival do gênero, a Pajada Jayme Caetano Braun, da cidade de Sapucaia do Sul, a partir do ano de 1999.
    Após o ano de 2001 alguns dos principais rodeios do Estado passam a realizar concursos de pajadas, mas não consegue revelar grandes expressões da referida arte. É no nativismo que surgem novos pajadores e a arte continua sendo mais reconhecida e apreciada.
    Ela mantém uma interligação com o movimento mundial da poesia oral improvisada, no qual alcança grande notoriedade e coloca o sul do Brasil no mapa da improvisação internacional, continuamente representada nos encontros ibero-americanos.
    Os festivais de pajada no Rio Grande do Sul começam com o evento já citado, em Sapucaia do Sul, porém antes dele acontece na cidade de Passo Fundo no ano 1993 o Te-Déun de Pajadores da América Latina, evento que realiza uma única edição, todavia registra em disco os improvisos dos pajadores do Brasil, Uruguai e Argentina. Em 2000, mesmo antes da promulgação da lei que cria o dia do Pajador Gaúcho que só acontece em outubro do ano seguinte, começam os encontros de pajadores em comemoração à data de nascimento de Jayme Caetano Braun. Apesar de ser uma arte extremamente tradicional, ainda é desconhecida de muitos no Rio Grande do Sul. É natural que quem não conheça não goste, mas quem contata com ela se apaixona.

    Títulos de Festivais de música, poema e pajada


    Acampamento da Arte Nativa - Tapes
    Acampamento da Canção Nativa - Campo Bom
    Água da Sanga - São Jerônimo
    Aldeia da Música do Mercosul - Gravataí
    Aparte do Verso Xucro - Passo Fundo
    Baquería de los Piñares - Vacaria
    Barreoro da Canção - Bagé
    Bateada da Canção - Lavras do Sul
    Biquira da Canção Nativa - Rio Grande
    Bivaque da Poesia Gaúcha - Campo Bom
    Bordoneio do Canto Ibiá - Montenegro
    Califórnia da Canção Nativa - Uruguaiana Candeeiro da Canção Nativa- Restinga Seca
    Canoa do Canto Nativo - Canoas
    Cante uma Canção em Vacaria - Vacaria
    Canto Alegretense da Canção Gaúcha- Alegrete
    Canto ao Saladeiro - Quaraí
    Canto da Lagoa - Encantado
    Canto do Urutau - Rio Pardo
    Canto do Sinos - São Leopoldo
    Canto dos Cardeais - Canguçu
    Canto dos Ervais - Palmeira das Missões
    Canto Interuniversitário Rio-Grandense (CIRIO) - Pelotas
    Canto Missioneiro - Santo Ângelo
    Canto Molque - Candiota
    Canto Nativo - Santo Augusto
    Canto Paisano da Música Gaúcha - Pelotas
    Canto Sem Fronteira - Bagé
    Capela da Canção Nativa - Amaral Ferrador
    Carijo da Canção Gaúcha - Palmeira das Missões
    Carreta da Canção Nativista - Passo Fundo
    Casilha da Canção Farrapa - Itaqui
    Chamamento do Pampa - Passo Fundo
    Charqueada da Canção Nativa -Pelotas
    Chimarrão da Canção Missioneira - Coronel Bicaco
    Ciranda Teuto-Rio-Grandense - Taquara
    Colina da Canção Gaúcha - São João da Urtiga
    Convenção Nativista - Júlio de Castilhos -
    Comparsa da Canção Nativa - Pinheiro Machado
    Coxilha Nativista - Cruz Alta
    Coxilha Negra - Butiá
    Eco dos Festivais - Tramandaí
    Encantadas - Santana da Boa Vista
    Escaramuça da Canção Gaudéria - Triunfo -
    Esmeralda Canta Zé Mendes - Esmeralda
    Estância da Canção Gaúcha - São Gabriel
    Esteio da Canção Nativa - Esteio
    Feitoria - São Leopoldo
    Festival César Passarinho - Caxias do Sul
    Festival da Barranca - São Borja
    Festival da Música Crioula - Santiago -
    Festival da Mata - Mata
    Figueira da Canção - Porto Alegre
    Galponeira - Bagé
    Garimpo da Poesia Gaúcha - Soledade
    Gauderiada da Canção Gaúcha - Rosário do Sul
    Grito de Bravos - Lavras do Sul
    Grito do Nativismo Gaúcho - Jaguari
    Gruta Em Canto - Festival Nativista, Turístico e Ecológico -Nova Esperança do Sul
    Guyanuba da Canção Nativa - Sapucaia do Sul
    Inúbia da Cantiga Nativa - Arambaré
    Jerra da Canção Nativa - Santa Vitória do Palmar -
    Laçador do Canto Nativo - Porto Alegre
    Levante da Canção Gaúcha - Capão do Leão
    Madrugada Nativista Missioneira - Santo Angelo
    Manancial Arte e Cultura - Piratini
    Manancial da Canção Crioula - Bagé
    Manancial Missioneiro - Bossoroca -
    Manoca da Canção Nativa - Santa Cruz
    Minuano da Canção Nativa - Santa Maria e São Pedro do Sul
    Moenda da Canção - Santo Antônio da Patrulha
    Moinho da Canção Gaúcha - Panambi
    Montenegro da Canção - Montenegro
    Musicanto Sul-Americano de Nativismo - Santa Rosa
    Musilabor - Porto Alegre
    Onda da Canção Nativa - Imbé
    O Rio Grande Canta o Cooperativismo- várias cidades
    Pajada da Feitoria - São Leopoldo
    Pajada Jayme CAetano Braun - Sapucaia do Sul
    Pastoreio da Canção Gaúcha - Novo Hamburgo
    Pátria da Poesia Crioula - Piratini
    Payada - Arroio Grande - inativo
    Pelota da /canção Gaúcha- Pelotas
    Pesqueiro da Canção Nativa - Ijui
    Ponche Verde - Dom Pedrito
    Primavera do Canto Xucro - Caxias do Sul -
    Querência do Bugio - São Francisco de Assis Querência da Poesia Gaúcha - Caxias do Sul
    Recanto da Canção - Porto Alegre
    Reculuta da Canção Crioula - Guaíba
    Reponte da Canção - São Lourenço do Sul -
    Rio Grande Canta os Açores - Capão da Canoa
    Ronco do Bugio - São Francisco de Paula
    Ronda da Canção Nativa - Alegrete
    Ronda de São Pedro - São Borja
    Salamanca da CançãoNativa- Quaraí -
    Sapukay da Canção Nativa - Santana do Livramento
    Seara da Canção - Carazinho
    Seival da Poesia Gaúcha - São Lourenço do Sul
    Semeadura da Canção Nativa - Tupanciretã
    Sentinela da Canção Nativa - Caçapava do Sul
    Serra, Campo e Cantiga - Veranópolis
    Sesmaria da Poesia Gaúcha - Osório
    Sinuelo da Canção- São Sepé
    Tafona da Canção Nativa - Osório
    Tchê - Festival dos Festivais - Porto Alegre
    Te-Deun de Payadores da América Latina - Passo Fundo
    Terra e Cor da Canção Nativa - Pedro Osório
    Tertúlia Musical Nativista - Santa Maria
    Tropeada - Canto Poesia Trova e Pajada -Guaíba
    Tropeada da Canção Nativa - Santana do Livramento
    Tropeada do Verso Sulino - Caxias do Sul
    Tropilha da Canção Nativa- Ajuricaba -
    Tropilha Crioula - São Borja
    Um Canto para Martin Fierro - Santana do Livramento
    Vertente da Canção Nativa - Piratini
    Vigília do Canto Gaúcho - Cachoeira do Sul
    Vindima da Canção - Flores da Cunha
    Vozes do Jacuí - São Jerônimo

    FORA DO RIO GRANDE DO SUL
    Fronteira da Canção Nativista - Concórdia - SC
    Sapecada da Canção Nativa - Lages - SC
    Nevada da Canção Nativa - São Joaquim -SC
    Cante - Terra - Campo Mourão - PR
    Pampa e Cerrado - Braília - DF


  • Jayme Caetano Braun, o mestre do improviso

    Dez anos depois da sua morte, aos 75 anos, o inimitável pajador de Bossoroca continua sendo reverenciado como um dos maiores artistas do nosso tempo no Rio Grande do Sul e um homem que estava sempre disposto a defender a cultura e os valores do gaúcho no palco ou longe dele
    Ao completar uma década da morte do pajador Jayme Caetano Braun, o frio parece o mesmo daquele 8 de julho de 1999, em Porto Alegre, numa oposição poética ao calor do dia 30 de janeiro de 1924, quando nasceu em Bossoroca. O pajador missioneiro foi divisor de águas na cultura gaúcha e viveu seus 75 anos com dignidade e reconhecimento. Era poeta comparável aos de fama nacional, mas seus versos ficaram presos entre os horizontes do gauchismo. Foi o maior improvisador e um dos artistas regionalistas mais aplaudidos de seu tempo. Contudo, a pajada somente foi reconhecida oficialmente pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) dois anos após sua morte. Foi exército de um homem só por 20 anos, quando começaram a surgir seus primeiros seguidores no improviso, dentre os quais me enquadro. A pajada sobrevive graças a Braun com sua força poética, persistência, defesa dos valores do gaúcho, poder de oratória, postura artística e evolução espiritual. Porque quando ele improvisava, as almas pré-colombianas convertiam sóis e luas pro interior de sua voz. Seus versos campeiros, filosóficos e de protestos possuíam luz transcendental.
  • Por isso sua poesia foi aplaudida e sentida, tornando-se eterna lança a sublimar corações. Quando pajava, era o Rio Grande cantando. E, entre uma estrofe e outra, se ao pensar fechava os olhos, recebia imagens, transcritas pela linguagem em que a palavra era o ato. Porque os versos removiam os escombros da injustiça, para quebrar o silêncio dos ancestrais massacrados, para mostrar o repúdio ao sofrimento da gente, aos desmandos dos governos e aos feitos ditatoriais que arrancaram sangue e lágrima do povo brasileiro. Era dono de um raro dom, o de reescrever a história e ser divisor do tempo. Tinha razão o poeta Balbino Marques da Rocha que previu o calendário mudado na esfera cultural gaúcha pra antes e após Braun.

    Como todos no universo, em qualquer degrau do tempo, não teve unanimidade da crítica com sua arte, porque cantava solito e resgatava dignamente a tradição de seu povo, que a maioria pensante não sabia da existência. Chegou a ser acusado de imitar castelhanos por ter aprendido a estrutura da Décima Espinela com o poeta uruguaio Sandálio Santos (Nicácio Garcia Beriso). Braun, na pujança de seus 34 anos de idade, estava resgatando o improviso com instrumental de cordas, que hoje sabe-se é o princípio desta arte dos tempos mais remotos no Rio Grande primitivo. Este canto brasileiro esteve presente no período da Revolução Farroupilha. Há registros bibliográficos sobre Pedro Canga (Pedro Muniz Fagundes), Francisco Pinto da Fontoura, Delfina Benigna da Cunha, Francisco Xavier Ferreira... E depois, a Décima Espinela seguiu no tempo com Manuel Luís Osório, Manuel do Carmo (M. Pereira Fortes), Felix Contreiras Rodrigues (Piá do Sul) e outros.

    A pajada, resgatada por Braun, tem raiz cultural na herança lusa da lírica medieval da baixa idade média, dos trovadores galaico-portugueses, dos cantadores açorianos e também dos troveiros espanhóis. Ele não o fez por acaso. Quando, em junho de 1958, protagonizou com Santos sua primeira pajada, no 2º Rodeio de Poetas da EPC, em Caxias do Sul, estava preparado. Havia presidido no ano anterior, assessorado de Dimas Costa, João Pio de Almeida e Vasco Leria, a comissão de estudos das correntes da poesia gauchesca do 1º Rodeio de Poetas. Esta comissão tratou, entre outros temas, de pajadorismo, epigrama, vultos exponenciais em cada época e corrente, e década Farroupilha. Por isso, conhecia o caminho que trilhou com talento e sabedoria. Conquistou galpões e palácios, analfabetos e literatos, velhos e jovens, o seu tempo e o futuro.

    É responsável pelo surgimento do Movimento Pajadoril Gaúcho e inspiração para novos pajadores que alargam os horizontes do verso rio-grandense. A nova geração de repentistas em décima do Rio Grande do Sul torna realidade a integração das três pátrias pampianas, que tanto Braun sonhou. Hoje há discos produzidos com pajadores do Brasil, Uruguai e Argentina, e participações em encontros internacionais nestes países, no Chile, na Venezuela, Espanha e Portugal. Seus seguidores levam seu nome a estes e outros países, e hoje Jayme Caetano Braun é comparável aos principais improvisadores e decimistas do mundo, como Índio Ñabori, de Cuba, Carlos Molina, do Uruguai, e Miguel Candiota, da Espanha.

    A nova geração de pajadores orgulha-se de poder divulgar o talento de Braun, inclusive nos demais estados brasileiros, e já contabiliza diversas atuações, especialmente no eixo Rio-São Paulo. É recebido por seus seguidores como um aplauso póstumo, o fato de uma obra de Braun abrir o CD da maior pesquisa sobre a poesia oral de improviso do Brasil, chamada Na Ponta do Verso. Lançado no Rio de Janeiro, em livro e CD, o trabalho é importante reconhecimento nacional aos novos artistas do verso repentino gaúcho e ao pajador-dos-pajadores, como o reverenciam seus discípulos.

    Seu poder de transformar o mundo vai além da poética, improviso ou tradicionalismo. Num país onde a maioria dos monumentos é de militares e políticos, o pajador consegue mudar o cenário. É o único artista que empresta o nome para um viaduto em Porto Alegre. É também exclusivamente sua, a honra de haver três estátuas para o mesmo poeta no Rio Grande do Sul (Porto Alegre, Passo Fundo e São Luiz Gonzaga). É o único homem civil no Estado cujo nome próprio dá título a um festival: Pajada Jayme Caetano Braun, em Sapucaia do Sul. Tem a data de seu nascimento consagrada por lei como o Dia do Pajador Gaúcho.

    Além dessas, há outras honrarias que não lhes são exclusivas, mas também importantes, como a de ter seu nome na nomenclatura de entidades, a exemplo do Galpão Jayme Caetano Braun, em Porto Alegre e CTG Jayme Caetano Braun, em Brasília. Receber tributos dentro e fora do Rio Grande, a exemplo da Semana Crioula do Prado, de Montevidéu, na qual ele, um pajador argentino e outro uruguaio receberam homenagem póstuma, formando a "Pátria Grande" com a qual sempre sonhou.

    Por estas e outras razões, registrar a passagem de uma década da morte de Jayme Caetano Braun, não é apenas reverenciar um vate inspirado, um pajador magistral, um sábio da regionalidade ou o estro de um pensador gaúcho. É contribuir para salvar do esquecimento esta parcela importante da poesia oral improvisada brasileira, resgatada por ele e mantida com obstinação. É alertar que a pajada é uma arte rio-grandense em legítima contextura com as mais profundas raízes lusitanas, haja vista que a poesia popular portuguesa, segundo Theophilo Braga, é mais antiga que a espanhola. Além disso, é imprimir intrínseca intenção de romper os grilhões que ainda insistem em cercear a cultura gaúcha em relação a dos demais conterrâneos.

    Porque somente depois disso nossos artistas deixarão de ser comparáveis aos de reconhecimento nacional, o serão.

    Este último artigo foi publicado no Caderno de Cultura da Zero Hora em 04/07/2009 - de autoria de Paulo de Freitas Mendonça. Os demais em diversas edições do Jornal do Nativismo, com a mesma autoria.
  • Todos os artigos desta coluna são de autoria de PAULO DE FREITAS MENDONÇA - Jornalista e pajador. Em caso de utilização de todo ou parte deles, favor dar crédito de autoria. Caso contrário estará sugeito a penalizações da lei LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.

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