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pajador
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Paulo de Freitas Mendonça / Décimas - Pajadas

Tandil - Argentina

A décima era uma estrofe da literatura clássica na Europa no século XV e XVI e segundo a maioria dos autores veio para América através dos colonizadores e aqui ganhou força especialmente no canto improvisado, quando o xucro deste fim de mundo adaptou a estrutura clássica ao palavreado regional, fundindo num tipo de improviso muito particular. Há também quem julgue que os colonizadores não eram cultos o suficiente para trazerem uma arte clássica em suas bagagens, contudo ela se manteve no novo mundo,
em meio a povo tão barbaresco. No século XVII a décima estava consolidada na Espanha, com versos heptassílabos, inclusive através do teatro, porém nos séculos seguintes teve uma queda e só retornou a ter maior visibilidade no século XX. Nas Américas esteve em constante crescimento e criou características próprias com a poesia escrita e improvisada nos cantos de apego à Terra.


Montevidéu - Uruguai

Sua estrutura abbaaccddc, com versos setissílabos, é leito do improviso ou verso escrito em vários países como Argentina, Brasil, Chile, Cuba, Espanha, Ilhas Canárias, México, Panamá, Perú, Porto Rico, Venezuela, etc.... Sua potencialidade poética é tão grande que pode ser vista como um poema. A décima exige que o vate coloque um assunto por inteiro em dez versos. O tema tem que ter início, meio e fim. Mesmo que um poema ou uma pajada possuam várias estrofes,cada uma delas precisa desenvolver uma idéia completa.

Ao seguir o mesmo tema o decimista tem que encontrar outra visão sobre ele e desenvolvê-la totalmente. A pontuação dentro da décima é livre e conforme o conteúdo do tema, especialmente quando improvisada, porém é necessária, como em qualquer obra literária, correção. Existem outros tipos de décima que não seguem o rigor da décima Espinela, por exemplo abbccddeed, abbaccbddb, abbccddccd, ou totalmente sem rima, que também são décimas, mas não podem ser consideradas como a clássica Décima Espinela que é usada para improviso no Brasil e noutros países. Estas são chamadas de "copla real".
No sul do nosso país, a Espinela se manteve mais presente no canto regional em verso heptassílabos. Seu destaque maior está no canto dos pajadores, embora existam alguns poucos poetas que escrevam por este tipo de estrofe, a maioria por influência ou admiração aos pajadores.
A décima pode ter encerramentos variados ou de pé forçado.


Lavras do Sul - Brasil

 

Décima

"Por ser um balde de poço"
Exemplifico a décima de pé forçado no último verso intitulada Por ser um balde de poço,
na qual repito o verso "fico entre claro e escuro":
(1)
Por ser um balde de poço
que anda rangindo corda,
tenho sonho que transborda
rumo a água em alvoroço.
Neste balanço de moço,
descoberto e inseguro,
não sei em que me penduro,
se sou mesmo água limpa.
Vou ao fundo e volto à grimpa.
Fico entre claro e escuro.
(2)
Ás vezes subo e desço,
me batendo na parede,
amargando a própria sede
talvez por pagar o preço
do que não sei se mereço,
no entanto creio que aturo.
Me bato no bocal duro
ou mergulho no macio.
Por não ter nascido rio
Fico entre claro e escuro.
(3)
Sem reger o meu destino
num castelo sem janela,
obedeço a manivela
por um braço de menino.
Quando estou em desatino,
o silêncio desconjuro,
mas às vezes o procuro
para quebrar-lhe um pedaço.
Se no espelho me refaço,
Fico entre claro e escuro.
(4)
Mais que o seco e o molhado
dos cafundós do meu pampa,
não quero emborcar na tampa
de algum poço abandonado,
tampouco ser transformado
em vaso atrás de algum muro.
Num vai e vem sem futuro,
prefiro o topo e o fundo.
Já que não posso ir ao mundo,
Fico entre claro e escuro.
.



Com Manoel Galeote e Alberto del Campo, palestrando na Espanha


Entre flores e espinhos
(1)
Quando sonha o pessimista
parece haver pesadelo.
Por não querer ser sinuelo
perde a chance de conquista.
Porém se é o otimista
o sonho vira projeto.
Por ser peleador inquieto
com sonho não se conforma,
pega a ilusão e a transforma
em algo lindo e concreto.
(2)
Quando perde o otimista
vê na perda uma experiência.
A sua própria consciência
não permite que desista.
Porém se a um pessimista
lhe bate à porta a vitória,
ao invés de ver a glória
conquista junto um temor
e justifica o pavor
com desgraçados da história.
(3)
Quando fala um pessimista
há um resmungo na fala
e uma tristeza que abala
qualquer um que o assista.
Quando cala um otimista,
pois falar não é preciso,
brota na face um sorriso
de uma fé vitoriosa.
Sua expressão silenciosa
é a voz do paraíso.
(4)
Quando parte um otimista
novo horizonte vislumbra,
aproveitando a penumbra
pra descansar sua vista.
Quando parte um pessimista
vê lonjuras no caminho,
amarga à noite sozinho,
mas no mesmo corredor
otimista enxerga a flor
e pessimista o espinho.


Melhor que ter é ser
(1)
Quando estático me paro
em qualquer lugar do mundo,
há um silêncio profundo,
um isolamento raro.
Mesmo junto, me separo,
fecho os olhos, me concentro.
Polarizo-me por dentro,
para poder compreender
que melhor que ter é ser
e somente Ele é centro.
(2)
Se ouço a respiração
eu me avisto por inteiro.
O estalar do braseiro
contrapõe a pulsação.
Deixo de ser coração
para inundar-me da mente.
Revisito o inconsciente
para poder compreender
que melhor que ter é ser
e o doar refaz a gente.
(3)
Com pés firmes sobre a terra
Eu me sinto mais seguro,
por entender que o futuro
depende da paz que encerra.
Não há vitória na guerra.
Por rejeitar quem combate
fico tomando meu mate
para poder compreender
que melhor que ter é ser
e vencer guerra é empate.
(4)
Quando a grandeza ostenta
mais poder que o ser humano
se constrói um deus profano
que por si não se sustenta.
Minha fé não se acorrenta
aos subterfúgios seus.
Prefere pensares meus
para poder compreender
que melhor que ter é ser
e templo não faz o Deus.
(5)
Há quem mire pro externo,
conceituando o visual.
Prefiro o espirtual
que no contexto é eterno,
contudo não me consterno
sem vaiar ou gastar palma.
Procuro manter a calma
para poder compreender
que melhor que ter é ser.
Tenho um corpo. Sou uma'lma.

Incompleta e fugidia
(1)
Não se constrói a poesia.
Ela é quem faz o poeta.
Nunca virá por completa
nem de toda é fugidia.
Quem sente sua magia
Torna-se fio condutor,
decifra o seu teor,
descreve seu intertexto
e ao conhecer seu contexto
faz-se poeta e pajador.
(2)
Nestes momentos fugazes
em que canto o meu verso
eu colho do universo
estas repentinas frases
e as entrego para as bases
da mesma forma, energia,
fazendo a sabedoria
dos grandes deuses dos vates
vir cevar os novos mates
dos amantes da poesia.
(3)
Por entendê-la que venho
entregar-me por inteiro,
ser-lhe a pena do tinteiro
pra construir seu desenho.
Compreendo que não a tenho
por ela não ser de alguém.
Só ela sabe a quem vem
por isso em silêncio espero.
Nem sempre vem quando quero,
quando me quer, já me tem.



Recebe de Eduardo Scoffield o troféu Condor de Fuego - Argentina 2002

A Suprema Paz

A paz é mais que um evento,
sutil em sua unidade.
Possui mais diversidade
que da terra ao firmamento.
A paz de estacionamento,
por plasmada, nada faz,
ensimesmada lhe apraz
beber do egocentrismo.
Por ser paz de egoísmo
Não é a suprema paz.

A paz de quem não agride
com falso olhar sereno,
por não judiar do pequeno
se julga grande e regride.
Pela empáfia não progride,
pois tem ganância mordaz.
Dança a vaidade fugaz
na guerra embaixo dos panos,
sendo paz de ares profanos
Não é a suprema paz.

A paz falsa que consola
pondo-lhe a mão na cabeça.
Ao contrário que pareça
produz falácia e enrola,
num discurso que controla
a inocência que ali jaz.
É uma paz incapaz
de acalmar alheia dor.
Por ser de esfera inferior,
Não é a suprema paz.

A paz trançada em tratados,
em contrato ou carta régia,
é uma paz de estratégia
com dois lados deformados.
É paz dos desesperados
que são guerreiros, aliás,
com rastros de sangue atrás,
apenas cessam as mortes
Paz de interesse dos fortes
Não é a suprema paz.

A paz por necessidade
por revanche do vencido
é algo tão sem sentido,
foge a razão da verdade.
É paz sem cumplicidade
que um passo em falso a desfaz.
Logo a guerra se refaz
em sua arte tão ágil.
Por ter fundamento frágil,
Não é a suprema paz.

Paz de interesse vulgar,
gesto de falso cortês,
salgada de insensatez
é gota doce no mar.
Mistura-se ao seu azar
e por mais que seja audaz
torna-se ineficaz
de vestir-se em cortesia.
Por ser paz de antipatia
Não é a suprema paz.

A paz de estar solito
no meio da multidão
ou de arder em solidão
em seu recinto restrito.
É paz que sufoca o grito
da realidade vivaz.
Por sonhador contumaz,
se torna um auto-recluso.
Por ser a paz de um confuso,
Não é a suprema paz.

A paz de grande festejo
só vestida de aparência
é uma paz sem consciência
de destorcido desejo.
Rolam moedas ao tejo
na extravagância voraz.
Quase ninguém é capaz
de conter farto consumo.
Por embriagar seu rumo
Não é a suprema paz.

Paz de alardes frenéticos
de falatórios inúteis
com protagonistas fúteis
e resultados patéticos,
atropela atos éticos,
mostra vistoso cartaz,
porém quem é perspicaz
pouca atenção lhe demanda,
porque a paz de propaganda
Não é a suprema paz.

Contudo, a paz de verdade
tem sopros de onipotência,
de compreensão, clemência,
fé, justiça e caridade,
de infinita bondade,
de servidor pertinaz,
de amoroso tenaz,
vendo a todos como seus.
Só a paz que vem de Deus
É sim, a suprema paz.


Disse Dom Jayme Caetano

Lembro Dom Jayme Caetano,
o pajador missioneiro,
como um pajé feiticeiro
do xucro verso pampeano.
Quando esteve nesse plano,
disse ao Pago muito bem:
“Às vezes quem nada tem
é aquele que melhor vive,
quantas fortunas eu tive
sem nunca ter um vintém.”

Menestrél iluminado,
do nosso tempo, um Homero,
que teve um cantar sincero
do presente e do passado.
Disse que o Patrão sagrado,
em sua sabedoria,
“deu o canto e a melodia
para os pássaros e os ventos
pra que fossem complementos
do que chamamos poesia”

Fez um relato preciso,
em sua crioula leitura,
que Deus fez criatura
que expulsou do paraíso.
Arrematou d’improviso
com este verso bonito:
“O homem nasce de um grito
e a morte é tão silenciosa
na passagem misteriosa
que apaga nosso infinito”

Poeta e pajador,
o crioulo das missões,
fazia interpretações
do gaúcho campeador,
desde o de fino teor
ao taura da casca grossa:
“Que bárbara a raça nossa,
vejo quando examino,
as origens do teatino
que o chimarrão não adoça”

De-a-cavalo na experiência
que lhe forjou a estatura
num manancial de cultura,
interrogando à existência.
E por ter buena consciência,
disse com sinceridade:
“Aprendi na mocidade
algo que ninguém me tira,
que não há meia mentira,
tampouco meia verdade.”

Por isso tem a certeza
que nada é ultrapassado,
porque tudo está ligado
nas teias da natureza.
Nos explica com clareza
a força da auto-estima:
“Há uma lei que vem de cima
na estrada do tapejara:
- o tempo que nos separa
é o que mais nos aproxima.”

Conheci este cantor
escreve Mozart Pereira
quando abre-lhe a porteira
do potreiro pro leitor.
Também guardo este “honor”;
igualmente o conheci.
E com ele eu aprendi
o que o mundo saberá:
“Por longe que o homem vá
nunca fugirá de si”

Há homens que nascem vento
passam - passam, ninguém nota,
mas os de bombacha e bota
são feitos de sentimento.
Por orgulho ao seu talento
na pajada e na cantiga
sempre ouço voz amiga
a alardear com louvor:
“Que conheceu um cantor
daqueles da marca antiga.


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