|
Radialista Reg. profissional
nº 2.157 e Jornalista Reg.
profissional nº MTB 11.627
Registro profissional
nº 2.157 do Sindicato dos trabalhadores em empresas de radiodifusão
e televisão do Rio Grande do Sul.
Atuou por dez anos na Rádio Liberdade FM, onde produziu e apresentou
os programas O Som dos Festivais, Alma Nativa, Raízes do Canto,
América Crioula e Música do Sul.
Apresentou o Programa Jornal do Nativismo (Síntese noticiosa)
por três anos em 12 emissoras do Rio Grande do Sul, Santa Catarina,
Paraná, São Paulo, Mato Grosso e na Argentina.
Produziu e apresentou o programa de rádio, Galpão do
Pajador, irradiado em 12 emissoras no Rio Grande do Sul, Santa Catarina,
Paraná.
Atuou por 05 anos na equipe de jornalismo cultural da Rádio
Gaúcha AM (RBS)– Porto Alegre.
Atuou por quatro anos na Rádio Rural AM (RBS)– Porto
Alegre.
Produziu e apresentou os programas Caminhos do Sul e Querência
do Pajador.
Realizou transmissões de festivais para a TV 2 Guaíba
de Porto Alegre e de desfiles farroupilhas para a TVE de Porto Alegre..
É diretor de reportagens do Jornal do Nativismo de Porto Alegre.
Realiza reportagens dos festivais para diversas emissoras do País.
Artigos de autoria
de Paulo de Freitas Mendonça
Tradicionalismo ou Nativismo
Por
Paulo de Freitas Mendonça
Jornalista e pajador
Quem quiser demonstrar a cultura gaúcha visualmente vai ter
um retângulo cujas pontas ostentam cores diferentes com um dégradé
em direção ao centro. No ponto mais eqüidistante
das extremidades vai existir um matiz difícil de identificar
a que lado pertence. Assim é a cultura do Rio Grande do Sul,
composta por dois movimentos distintos, mas iguais. Há o tradicionalista
que não compreende ou não gosta do nativismo e o nativista
que não entende ou não aprecia os rituais do tradicionalismo.
Porém há aqueles que, como no matiz central do quadro
imaginário proposto, ora são interpretados como tradicionalistas,
ora como nativistas. Transitam nos dois campos culturais com a mesma
notoriedade e legitimidade. Luiz Carlos Barbosa Lessa, recentemente
falecido, considerado o maior teórico do tradicionalismo, registra
em seu livro Nativismo, que a cada trinta anos surge um novo "ismo".
Menciona o gauchismo de Cezimbra Jacques em 1889, regionalismo por
volta de 1920, o tradicionalismo em 1947 e o nativismo a partir da
década de 70. Complementa o folclorista: em 2000 deve se cuidar
para não haver o "barulhismo". Seu temor tem uma
certa ponta de razão, mas ele não prevê o possível
momento do centrismo na cultura gaúcha.
Definir o tradicionalismo e o nativismo parece ser tarefa simples
quando se lê as palavras num dicionário, contudo decifrar
os movimentos representados por estes dois "ismos" é
mais complexo. Saber quem são e o que pensam as pessoas que
formam estes dois grupos que se complementam e às vezes se
confundem requer uma análise mais profunda do que uma simples
frase, muitas vezes preconceituosa. Entender o que pensam os membros
destes dois grupos de indumentárias distintas e outras vezes
tão semelhantes, é complexo. Decifrar estas duas tribos
com guerreiros aquartelados nos Centros de Tradições
Gaúchas (CTGs) ou nos ginásios de esporte que viram
cenários para os festivais, não é fácil.
Conhecer as lideranças dos que ostentam cargos adquiridos através
de eleições e dos que conquistam posições
por meio de suas prestigiosas manifestações artísticas,
é fundamental. É necessário recorrer à
sociologia e à antropologia para tentar desvendar o mistério
de uma divisão quase oculta e ao mesmo tempo tão declarada.
O tradicionalismo gaúcho é um movimento organizado com
uma estrutura hierárquica rígida e um mapeamento do
Estado. É quase como um governo paralelo especificamente para
o gerenciamento da tradição, mas não exclusivamente.
Há uma questão humana intrínseca. Possui um presidente
na capital, trinta coordenadores nas chamadas Regiões Tradicionalistas
(RTs) e os patrões nos Centros de Tradições Gaúchas.
Há cidades que possuem ainda uma associação das
entidades, cujo presidente tem sua posição hierárquica
estabelecida entre o patrão e o coordenador. Como primeiras-damas
culturais existem as primeiras prendas em três modalidades e
três níveis. As modalidades são mirim, juvenil
e adulta e os níveis são as prendas das entidades, das
regiões e do Estado. Um cargo surgido mais recentemente é
o de Peão Farroupilha, nos mesmos níveis das prendas
e nas modalidades de piá e adulto. Todos são uma espécie
de relações públicas do tradicionalismo e conquistam
seus cargos num verdadeiro vestibular cultural. Ao contrário
do nativismo, há uma rigidez quase militar no tradicionalismo
no que tange a indumentária. Chega em alguns casos no limite
de que a imagem vale mais do que o conteúdo.
O nativismo gaúcho não é uma entidade e sim um
movimento cultural cuja união está na identificação
pessoal e na semelhança de produção artística
de seus membros. Os líderes são os artistas e os organizadores
de festivais, mas não há uma hierarquia estabelecida
entre eles. Ambos possuem associações independentes
na expectativa de uma organização maior, porém
não se pode comparar com as diretorias e patronagens do tradicionalismo.
Os guerreiros desta tribo são os admiradores da música
nativa, da poesia gaúcha e da pajada rio-grandense. Seguem
seus ídolos, mas não lhes dão exclusividade.
Aplaudem e consomem o produto cultural dos que mais se identificam.
Vão aos festivais com o mesmo entusiasmo com que frequentam
os CTGs. Há migrantes entre os grupos, contudo pode-se afirmar
independente de qualquer pesquisa de que o tradicionalismo municia
o nativismo com maior contingente de pessoas do que o contrário.
Se há diferença organizacional entre eles, há
semelhança sentimental. Ambos sustentam seus discursos ideológicos
no amor à Terra. Tradicionalismo e nativismo cantam as belezas
da querência, envergam indumentária típica, demonstram,
cada um à sua moda, amor pelo Rio Grande do Sul e são
sustentados pelo concurso. Embora nesta demonstração
de apego ao pago, o tradicionalismo dance mais do que cante e o nativismo
quase que exclusivamente cante, este ano o Movimento Tradicionalista
Gaúcho (MTG) cria um festival de música que abrange
todas as RTs, o que significa uma mobilização estadual.
Pela visão antropológica, ambos os segmentos são
agregadores da família e do grupo local. Possuem a linguagem
dos signos herdada de ancestrais. Falam do seu mundo com a dimensão
de seu conhecimento. São responsáveis pelo crescimento
da auto-estima do povo rio-grandense e grandes propulsores da economia
estadual. Enquanto o tradicionalismo estuda o folclore e a tradição,
o nativismo está mais voltado para a manifestação
folclórica. O primeiro define o corpus de sua atuação
dentro do que estabelece como tradicional e folclórico e o
segundo busca universalizar estes dados com enfoque poético-musical
mais abrangente e inovador.
As pontas de cores distintas do quadro imaginário que define
a cultura gaúcha se debatem nesta questão. Os mais entusiastas
do tradicionalismo julgam que o nativismo está deturpando a
cultura gaúcha e os vanguardistas do nativismo acusam os tradicionalistas
de serem responsáveis pelo saudosismo cultural. Já os
que são representados pelo matiz dégradé, visualizam
o somatório do poder cultural que os dois movimentos proporcionam
para o engrandecimento espiritual dos habitantes do Estado. Juntos,
eles mobilizam mais de um milhão de pessoas. Isto só
no Rio Grande do Sul, haja vista que a cultura gaúcha está
presente em todos os estados brasileiros e fora do território
nacional com grande representatividade.
Barbosa Lessa, ao fundamentar o tradicionalismo afirma que "...
as duas unidades sociais mais importantes como transmissoras de cultura
são a família e o grupo local". Nos grandes centros
populacionais urbanos os CTGs são os locais da fuga do individualismo
das metrópoles. As pessoas buscam reencontrar o sentimento
de grupo local, com os mesmos objetivos e atividades.
A cultura gaúcha como um todo é provedora deste encontro
familiar. A freqüência nos CTGs, rodeios e festivais normalmente
é de três gerações. Estando os grupos de
diferentes idades voltados ao mesmo objetivo, a herança cultural
é legada com maior facilidade entre eles e o fortalecimento
do regionalismo é mais pulsante. Encontrada no seio da cultura
gaúcha, a família rio-grandense posiciona-se na defesa
de seus mais íntimos anseios. Os pais acompanham o crescimento
etário e cultural de seus filhos e os apóiam nos momentos
de dificuldade como amigos da mesma entidade social, sem deixarem
de ser exemplos e ídolos. Tanto que o rodeio crioulo, uma das
atividades recreativas do tradicionalismo, institui o concurso de
laço "pai e filho", incentivando a integração
familiar. Da mesma forma acontece no nativismo quando um jovem sobe
ao palco para defender sua música num determinado festival,
toda a família oferece apoio à sua atuação.
A sociabilidade familiar, um dos maiores problemas da comunidade mundial
na atualidade, tem na cultura gaúcha um ponto de apoio importante.
Seus exemplos estão presentes desde os CTGs dos mais remotos
rincões até os da capital gaúcha.
As lideranças de ambos os movimentos também mobilizam
as famílias na questão organizacional. É comum
encontrar casais participativos nos CTGs ou na organização
de festivais de música ou poesia. Quando no grande grupo, em
congressos do Movimento Tradicionalista Gaúcho ou nas reuniões
da Associação das Comissões Organizadoras de
Festivais de Música do Rio Grande do Sul, é uma grande
família. Barbosa Lessa faz uma afirmação sociológica
para o evento: "qualquer sociedade poderá evitar a dissolução
enquanto for capaz de manter a integridade de seu núcleo cultural."
Nestes encontros há o congraçamento de pessoas de todas
as facções partidárias, todas as classes sociais,
credos e cores. A cultura é o objetivo comum para o qual todos
convergem suas dedicações.
Embora isso aconteça na comunidade local, os comandos políticos,
distantes do fato cultural, teorizam equivocadamente sobre a cultura
gaúcha. Os da extrema direita e da extrema esquerda julgam
que a estrutura das estâncias na cultura gaúcha, patrões
e peões, seja ideologicamente a favor da primeira e contra
a segunda. Ambos estão enganados, por que ela está acima
disso. É uma característica atribuída ao meio
de vida do rio-grandense. "O gaúcho é socialmente
um produto do Pampa, como politicamente é um produto da guerra",
afirma o pensador fluminense Oliveira Vianna em seu livro Populações
Meridionais do Brasil.
Nos festivais há uma comemoração da arte criada
em relação aos temas, mais do que uma vinculação
política que ela possa expressar, e normalmente as letras de
música estão recheadas de defesa das questões
humanas. O antropólogo rio-grandense Ruben Gorge Oliven registra
em seu livro A Parte e o Todo - A Diversidade Cultural do Brasil-Nação-,
algo comprobatório deste amor à arte acima de tudo.
"... o que me chama atenção é o fato de
o público aplaudir indistintamente músicas a favor ou
contra a figura tradicional do gaúcho." E complementa:
"Mas o público parece vibrar com todas; acho que, na realidade,
as pessoas vibram com a celebração da identidade gaúcha."
A criação do Tradicionalismo
Por
Paulo de Freitas Mendonça
Jornalista e pajador
A primeira tentativa de organização do tradicionalismo
surge em 1898 com a criação do Grêmio Gaúcho
de Porto Alegre, por João Cezimbra Jacques. Alguns autores
afirmam que Cezimbra Jacques agiu influenciado pelo Partenon Literário
que reunia a elite cultural de sua época. Outros clubes gaúchos
são fundados pelo interior do Estado. Segundo Hélio
Mouro Mariante em História do Tradicionalismo Rio-grandense,
foram a União Gaúcha de Pelotas, Centro Gaúcho
de Bagé, Grêmio Gaúcho de Santa Maria, Sociedade
Gaúcha de Lomba Grande de São Leopoldo (hoje pertencente
ao município de Novo Hamburgo) e Clube Farroupilha de Ijuí.
Segundo Moro Mariante este sentimento nativista impregnado na criação
das entidades de preservação do regionalismo tem a influência
do Uruguai que conta com sua entidade tradicionalista La Crioula,
fundada por Elias Regules, em 1894.
O tradicionalismo organiza-se definitivamente a partir de 1947, quase
como uma birra. Em 1940, com a estatização da Rádio
Nacional por Getúlio Vargas, a padronização cultural
borra as manifestações culturais regionais. Por sorte,
graças a sua força legítima não se apaga.
Em 1941, os Estados Unidos reforçam as relações
econômicas e culturais com a América Latina. O presidente
Franklin Roosvelt cria o Birô interamericano. Chefiado por Nelson
Rockfeller, o Birô começa a divulgar no Brasil o american
way of life, ou seja, o estilo de vida compatível com o consumo
dos produtos tipicamente norte-americanos, desde a Coca-Cola até
a revista Pato Donald. A indústria de refrigerantes investe
altos valores monetários na Rádio Nacional para colocar
no ar o programa Um Milhão de Melodias, uma espécie
de parada musical norte-americana. Isto, na verdade serve como ponta
de lança para a introdução do refrigerante e
dos produtos da indústria cultural daquele país em todo
o território brasileiro. A partir daí patrocinadores
passam a ter suas marcas associadas aos programas, a exemplo de Teatro
Good-Year, Recital Johnson, Programa Bayer e Calendário Kolynos.
Eles se tornam os maiores sucessos radiofônicos dos anos 40.
O rádio torna-se o fascínio dos ouvintes. Passa a ser
o maior influenciador dos hábitos e costumes de milhões
de brasileiros.
Segundo o historiador Gerson Moura, no seu livro Tio Sam Chega ao
Brasil, "foi dessa maneira que entre 1946 e 1947 o Brasil foi
inundado de produtos made in Usa..." Toda esta avalanche de informações
culturais chega num momento em que o País atravessa um período
de fragilidade cultural. Getúlio Vargas cria o Estado Novo
e promove uma afronta às diferenças culturais do País.
Estabelece, em 1937, a Constituição com o objetivo de
unificar a Nação. O gaúcho de São Borja,
enquanto presidente, institui que a bandeira, o hino, o escudo e as
armas passam a ser os únicos no País. Com a cerimônia
da queima das bandeiras em praça pública, ao som do
hino nacional, quando são hasteadas 21 peças da bandeira
nacional em lugar das estaduais, fica clara a perda do poder regional
e estadual. A partir daí, as mudanças profundas movem
com o imaginário popular e a cultura passa a ser algo estabelecido
pelo Estado Central. O samba ganha legitimidade como a representação
musical e a identidade cultural do País. Depois, o governo
que impõe uma postura de unidade nacional, permite que esta
nacionalidade seja enxovalhada pela de outro país.
Com a queda da Ditadura Vargas o cotidiano regional começa
a ser repensado. A imprensa começa atuar livremente e os intelectuais
retornam a divulgar o Brasil como uma nação de vários
segmentos culturais.
Em 1947, o jovem estudante do Colégio Estadual Júlio
de Castilhos, de Porto Alegre, João Carlos D'Ávila Paixão
Côrtes, recém chegado de Santana do Livramento, sai para
tomar um cafezinho e avista uma bandeira do Rio Grande do Sul servindo
de cortina para tapar o vidro de uma janela do bar, entre cachaça
e cigarro. O comerciante não sabia do que se tratava aquele
pano. Foi a gota d'água. Naquele ano Paixão Côrtes
cria, juntamente com alguns colegas, o Departamento de Tradições
Gaúchas, no Colégio Julinho. O grupo acompanha de-a-cavalo
o traslado dos restos mortais do General Farroupilha David Canabarro.
A primeira Ronda Crioula é criada para preservar, desenvolver
e proporcionar a revitalização à cultura rio-grandense.
O DTG comemora os 112 anos da Revolução Farroupilha.
Acende-se da Pira da Pátria pela primeira vez o fogo que os
tradicionalistas denominam de Chama Crioula.
"Não estávamos, nós os jovens, nos insurgindo
contra as coisas do desenvolvimento, da liberdade, do progresso, e
nem éramos insensíveis à evolução.
Mas queríamos também o direito de fixar as nossas coisas,
de preservá-las, de valorizá-las dignamente nos seus
devidos lugares", afirma Paixão Côrtes no seu livro
Origem da Semana Farroupilha - Primórdios do Movimento Tradicionalista.
Em 24 de abril de 1948 é fundado o 35 CTG, o pioneiro daquelas
entidades. Hoje são mais de 1700 CTGs em todo o País.
Em 1959, quando é criado o Conselho Coordenador, o Estado já
conta com diversos CTGs. Em 1966 cria-se o Movimento Tradicionalista
Gaúcho e em 1975, o Conselho Coordenador transforma-se em Conselho
Diretor, ativo até a atualidade.
O surgimento do Nativismo
Por
Paulo de Freitas Mendonça
Jornalista e pajador
O movimento nativista surge com a criação da Califórnia
da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, na cidade de
Uruguaiana, em 1971. O País atravessa a sangrenta Ditadura
Militar. A censura, com mão de chumbo, define o que é
mais apropriado para veicular ao povo. A música em idioma estrangeiro
ganha as paradas de sucesso das emissoras de rádio e televisão,
numa forma de adormecer aos mais atuantes cultural e politicamente.
Em revés a estes cinzentos tempos, há grande movimentação
cultural com a realização de festivais de música
popular brasileira nas mais diversas cidades do País. O mercado
da música gaúcha está voltado para o regionalismo
e o tradicionalismo. A trova está em alta, ainda por resquícios
do programa radiofônico Grande Rodeio Coringa e alguns programas
em emissoras AM no amanhecer ou entardecer do dia. Mas apesar disso,
a parcela gaúcha no mercado discográfico é irrelevante,
excetuando-se o fenômeno Teixeirinha, recordista em vendas de
discos até hoje.
A Califórnia da Canção é promovida por
um grupo ligado ao CTG Sinuelo do Pago, em Uruguaiana. Na primeira
edição, sessenta pessoas fazem a platéia. Nos
tempos de ouro da Califórnia, entre a décima e a vigésima
edição, chega atrair 60 mil pessoas. O poeta Colmar
Pereira Duarte é o centro de uma polêmica que gera o
surgimento do festival. Acaba vencendo a primeira edição
do evento que passa a ser exemplo para o ciclo dos festivais no Estado.
Na década de 80, surgem novos festivais e um verdadeiro turbilhão
nativista começa a tomar conta do Estado. Os jovens passam
a vestir bombachas, sair às ruas dos grandes centros com suas
mateiras e formar rodas de mate nas praças. Apressadamente
alguns tradicionalistas julgam que o movimento é apenas um
modismo. Hoje já contabiliza três décadas de atuação
e centenas de títulos de festivais. Atualmente são em
média 40 festivais por ano, mas já houve época
com mais eventos deste tipo do que finais de semana. Com a grande
produção musical gerada pelo nativismo surgem novos
programas de rádio e televisão. A mídia começa
olhar com atenção para os nativistas e vê fundamento
nos temas que são abordados pelos novos valores que começam
surgir ano a ano. Os festivais tornam-se mercado de trabalho e hoje
há um elenco de mais de mil nomes cadastrados como compositores,
músicos e intérpretes deste gênero musical só
no Rio Grande do Sul.
Na década de 80 surge a primeira emissora de rádio segmentada
exclusivamente na cultura gaúcha, a Rádio Liberdade
FM. Antes disso algumas emissoras já dão cobertura jornalística
aos festivais de música e aos eventos da tradição.
Na atualidade são seis emissoras no Estado, cinco FMs e uma
AM.
O primeiro disco da Califórnia foi gravado em São Paulo.
O movimento estruturou o mercado de trabalho, gerando uma espécie
de indústria cultural gaudéria. Atualmente existe uma
dezena de gravadoras no Estado e uma quantidade imensa de estúdios
de gravações. O consumo discográfico gaúcho
alcança a expressiva quota de 2 milhões de discos ao
ano.
Assim como o tradicionalismo dá sustentação aos
conjuntos musicais em seus fandangos, o nativismo faz surgir novos
valores que em breve tornam-se profissionais e passam a atuar como
contratados dos próprios festivais para espetáculos
especiais. Alguns deles já se orgulham da conquista do Disco
de Ouro pela vendagem de 100 mil cópias de seus CDs.
Assim como o tradicionalismo tem no seu ENART (Encontro de Artes e
Tradição Gaúcha) o seu principal encontro artístico
anual, surge para o nativismo a lei que cria o Troféu Vitória,
em 1995. Uma espécie de Oscar dos festivais, o Troféu
Vitória acontece por três anos no Theatro São
Pedro, em Porto Alegre, a partir de março de 1996. Este encontro,
promovido pela Associação dos Compositores, Intérpretes
e Músicos Nativistas (ACIMN) conta com o apoio do governo estadual
da época que destina 100 mil reais para as premiações
aos três melhores festivais e os artistas mais premiados do
ano. Apesar de ter dado uma nova vida aos festivais, ele não
acontece mais, embora a lei que o cria não tenha sido revogada.
A ACOFEM (Associação das Comissões Organizadoras
dos Festivais de Música do Rio Grande do Sul) atua em plena
sintonia com a SEDAC (Secretaria de Estado da Cultura) e CEC (Conselho
Estadual de Cultura). Este equilíbrio entre as entidades é
fundamental em virtude do movimento nativista depender de apoio da
Lei de Incentivo à Cultura para a realização
dos festivais.
PAJADA E TROVA BROTAM DO MESMO TRONCO
Por
Paulo de Freitas Mendonça
Jornalista e pajador
Pajador contemporâneo
Os pajadores brasileiros atuantes no momento vivem em grandes cidades,
embora a maioria seja de pequenas cidades do interior do Rio Grande
do Sul. Geograficamente os pajadores representam diversas regiões
do Estado. Encaminham-se para a pajada por influência de Jayme
Caetano Braun. Alguns vão beber noutras fontes e aprimorar
seus conhecimentos.
O Dia do Pajador Gaúcho, os festivais e concursos dão
maior difusão ao canto pajadoril e ao surgimento de novos valores,
que se espelham no trabalho de Braun e dos seus seguidores.
Trovador contemporâneo
Os trovadores gaúchos atuantes no momento vivem em diversas
cidades do Rio Grande do Sul. Alguns fora do Estado, porém
representam o Pago. Geograficamente habitam todo o Estado do Rio Grande
do Sul. Encaminham-se para a trova por influência de Gildo de
Freitas e seus seguidores.
O repentista histórico é o andejo ou gaudério
que surge na origem do gaúcho (ou el gaucho). Cruza os campos
em busca de lonjuras, quando no sul da América as fronteiras
são imprecisas. Até que provem ao contrário,
justifica-se sua presença em terras, hoje brasileiras, do mesmo
jeito e no mesmo período em que, em uruguaias, argentinas e
chilenas. Da mesma forma que afirma o pesquisador argentino Abel Zabala,
que o pajador constitui o arquétipo da identidade rio-pratense,
pode-se dizer que o pajador é a própria identidade cultural
do gaúcho brasileiro, muito bem retratada no personagem Capitão
Rodrigo de Érico Veríssimo, em O Tempo e o Vento.
Um dos indícios de que não se pode impor uma fronteira
para o pajador é a semelhança cultural entre gaúchos
brasileiros, uruguaios e argentinos. O próprio Martin Fierro,
uma referência do cantor gaúcho, andejo e pajadoresco,
escrito por José Hernandez nestas três nações,
não identifica diferenças. Sabe-se que no ciclo do gado
chimarrão o sul da América é disputado por índios,
espanhóis e portugueses. Os cruzadores de campos vivem a cantar
seus cotidianos e passam a improvisar aleatoriamente suas vivências,
tornando-se os primeiros jornalistas xucros destes campos largos povoados
por analfabetos.
Enquanto alguns intelectuais procuram definir as fronteiras culturais,
há outros que buscam derrubá-las e encontrar as semelhanças
no sul do continente. O Brasil é um país de apenas quinhentos
anos (e o Rio Grande, de trezentos). Numa análise radical não
encontra-se uma cultura delineada e própria. Tudo está
em formação. A busca das raízes do improviso
vai mais longe. "En su ascendência lírica aparecen
rapsodas y aedas griego, bardos celtas, trovadores y troveros provenzales,
segriers galaico-portugueses..." afirma o escritor e pesquisador
argentino Abel Zabala, uma das autoridades do canto improvisado daquele
país.
A pajadora argentina Marta Suint define a origem do pajador em seu
livro Guía Practica Para el Conocimiento del Payador como anterior
aos tempos de Homero, considerado o primeiro poeta grego, e complementa:
"Como antecedente literal, aparecen en las Eglogas de Teócrito
y Virgilio, contrapuntos pastoriles de la poesía provenzal,
en la mitología griega (contrapunto entre Apolo y Pan) y en
lo que sería el cimiento de la cultura Islamita. Las tribus
árabes se estabelecieron en el desierto, en la península
delimitada por el Mar Rojo, el Océano Indico y el Golfo Pérsico,
decenas de siglos antes de Cristo. Por entonces había dos classes
de improvisadores: los sayyid y los saalik (que es plural de shuluk,
que quiere decir cantor, vagabundo y salteador)."
O folclorista brasileiro Luis da Câmara Cascudo segue pela mesma
linha de pensamento em seu livro Vaqueiros e Cantadores para definir
o cantador do nordeste: "Quem é o cantador? É o
descendente de Aedo da Grécia, do rapsodo ambulante dos Helenos,
do Glee-man anglo-saxão, dos Moganís e metrís
árabes, do velálica da Índia, das runoias da
Finlândia, dos bardos armoricanos, dos scalcos da Escandinávia,
dos menestréis, trovadores, mestres-cantadores da idade-Média.
Canta ele, como há séculos, a história da região
e a gesta rude do homem. É a epea grega, o barditus germano,
a gesta franca, a estória portuguesa, a xacara recordadora.
É o registro, a memória viva, o Olám dos etruscos...".
Do mesmo tronco brotam os repentistas do Rio Grande do Sul, tanto
o trovador quanto o pajador. No sul do Brasil e em nosso tempo o pajador
canta seus versos no estilo recitado e não se acompanha musicalmente.
Um músico de apoio executa a milonga para a pajada.
Segundo Alberto Juvenal de Oliveira, em seu Dicionário Gaúcho,
o pajador é aquele que recita versos de improviso. O espanhol,
doutor em filologia e catedrático da Universidade de Las Palmas
de Gran Canária, Maximiano Trapero, define o pajador com a
mesma grafia em seu livro La Décima Su História, Su
Geografia e Sus Manifestaciones, como "Poeta improvisador en
Rio Grande do Sul (Brasil)." Ele também define Pajada
como "Nombre de la poesia oral improvisada em décima en
Rio Grande do Sul (Brasil)."
A diferença maior entre o pajador brasileiro e o rio-pratense
não está no surgimento desta arte para o novo mundo
e sim no período de profissionalização do pajador
e nos estudos feitos sobre este tipo artístico como um referencial
nacional tanto para a Argentina quanto para o Uruguai, enquanto para
o Brasil, regional.
O primeiro pajador urbano profissional que anda pelas duas margens
do Rio da Prata é o argentino Gabino Ezeiza (19.02.1858 - 12.10.1916),
por volta de 1880, conforme afirma o pajador e pesquisador argentino
Victor Di Santo em seu livro El Canto Del Payador En El Circo Criollo.
Se lá recomeça por volta de 1880 com Gabino Ezeiza e
aqui de 1958 com Jayme Caetano Braun (30.01.1924-08.07.1999), são
78 anos de uma distância que leva os menos avisados a crer que
a pajada brasileira inexista.
Nascida da mesma fonte, há no Rio Grande do Sul a trova, forma
mais popular de improviso. Possui três estilos, Campeira (Mi
Maior de Gavetão), Martelo e Estilo Gildo de Freitas. Ela parece
ter mais legitimidade, simplesmente por que é aceita oficialmente
pelo tradicionalismo há anos, o que passa a acontecer somente
em 2002 com a pajada. A diferença entre o pajador e o trovador
brasileiro está na forma de expressão e estrutura rimática.
O trovador canta seus improvisos em estrofes de seis linhas (ABCBDB)
e acompanhado por acordeon e o pajador em décimas, por guitarra
acústica (violão). Ambos se valem de um músico
de apoio. Não executam seus instrumentos. O pajador e o trovador
gaúchos possuem a mesma origem. Muda a nomenclatura e a forma
rimática. A métrica é a mesma em heptassílabo.
Em vários países do mundo há repentistas com
os mesmos anseios e um verso a cada instante, independente do nome.
Todos somam para o movimento da poesia oral improvisada.
Alguns Repentistas
Argentina:
Gabino Ezeiza - payador.
Jorge Alberto Socodatto - payador.
Lázaro Moreno - payador.
Marta Suint - payadora.
Roberto Ayrala - payador.
Suzana Repetto - payadora.
Victor Di Santo - payador.
Brasil - Sul:
Adão Bernardes - trovador e pajador.
Albeni Carmo de Oliveira - trovador e pajador.
Arabi Rodrigues - pajador.
Chico Vargas - trovador.
Crioulo Batista - trovador e pajador.
Formiguinha - trovador.
Gildo de Freitas - trovador.
Jadir Oliveira - trovador e pajador.
Jayme Caetano Braun - pajador.
José Estivalet - trovador e pajador.
Luiz Müller - trovador.
Moraezinho - trovador.
Pedro Jr. da Fontoura - pajador.
Portela Delavi - trovador.
Brasil - Nordeste:
Chico Nunes - cantador.
Lourival Batista - cantador.
Patativa de Assaré - cantador.
Chile:
Cecilia Astorga - payadora.
César Castillo - payador.
Eduardo Peralta - payador.
Lázaro Salgado - payador.
Manuel Sanchez - payador.
Pedro Yáñez - payador.
Cuba:
Alexis Diaz-Pimenta - repentista.
Ernesto Ramires - repentista.
Iran Caballero - repentista.
Manuel Garcia - repentista.
Espanha:
Geraldo Paez - poeta.
José Arevalo - poeta.
José Sotto - trovero.
Juan Moron - trovero.
Manoel Caballero - trovero.
Espanha - Canárias.
Yapsis Vienes - verseador.
Yeray Rodrigues - verseador.
Itália:
Mauro Chechi - cantastorie.
México:
Antonio Garcia León - repentista.
Guillermo Vellázquez - repentista.
Panamá:
Arcadio Camaño - cantador de mejorana.
Antonito Vazquez - cantador de mejorana.
Porto Rico:
Isidro Fernandes - trovador.
Roberto Silva - trovador.
Uruguai:
Felipe Arellano - payador.
Carlos Molina - payador.
Gustavo Guichon- payador.
Gabino Soza - payador.
José Curbelo - payador.
Juan Carlos Bares - payador.
Juan Carlos Lopez - payador.
Juan Nava - payador.
Mariela Acevedo - payadora.
A Décima Gaúcha no Período Farroupilha
Por
Paulo de Freitas Mendonça
Jornalista e pajador
Pela primeira vez acontece um concurso de pajada no ENART, o que representa
o reconhecimento oficial pelo MTG a este tipo de arte. Embora a pajada
e a décima sejam tão tradicionais quanto as demais artes
apresentadas naquele evento, o desconhecimento generalizado sobre
elas é o que impede até então sua oficialidade.
Jayme Caetano Braun, falecido em 8 de julho de 1999, é o grande
responsável pelo ressurgimento da pajada no sul do Brasil.
É também considerado um dos maiores difusores da Décima
Espinela no Rio Grande do Sul. A décima e a pajada existem
antes de Braun em território rio-grandense, e isto não
tira o mérito do pajador maior, que pode ser considerado o
primeiro pajador-artista-profissional do sul do Brasil. Também
não se pode desprezar a informação de que no
nordeste brasileiro a décima é usada como forma de repente
há mais de um século. Lá estes repentistas são
chamados de cantadores ou violeiros.
Em 1924, no ano em que Braun nasce, o poeta e pajador natural da cidade
de Santiago, Manuel do Carmo, sob o pseudônimo de M. Pereira
Fortes, lança seu livro Cantares da Minha Terra, no qual inclui
belas décimas, cita os pajadores e é citado no prefácio
como tal. Ele teria aprendido a improvisar em "glosa" com
os pajadores rurais pelos galpões das estâncias de seus
familiares.
M. Pereira Fortes, também conhecido por Pereirinha ou Manduca,
registra décimas que chamava de epigrama ou glosa ao "tanger
da viola".
"Poetas da Minha Terra
Que a cantar levaes a vida,
Ao som da gaita sentida,
Que tanta poesia encerra;
Quando a musa vos descerra
O peito em trova serenas,
Porque não cantaes as scenas,
Da nossa terra encantada,
Terra entre as mais adorada,
Pátria das lindas morenas?
..............
Poetas do meu Rio Grande,
Pelo pampeiro embalados,
Que cantaes apaixonados
Com harmonia tão grande,
Porque, quando a musa expande
No canto a trova sentida,
Porque não cantaes a vida
O ar, a serra, a campanha,
O céo, a belleza extranha
Da Nossa Terra Querida?"
Antes dele porém, a décima já é conhecida
e difundida em solo gaúcho. Segundo o sociólogo, bacharel
em direito, musicista, historiador, biógrafo e autor de diversas
obras, Fernando Osório, há décimas no período
da Revolução Farroupilha, no Estado. No seu livro A
Graça e o Lyrysmo-Heróico dos Farrapos, Osório
registra que em 1834, o mártir revolucionário Francisco
Xavier Ferreira, que morre no cárcere, registra em décima
seu ideal:
"Dos decretos de Minerva
A prol do grande Brasil,
Receia o bando servil,
Já treme a facção proterva,
Embora infame caterva
Trace planos atrevidos
Serão logo desmentidos
Êsses planos ignavos
Pelos que não são escravos
De Braga e Barreto unidos."
Outra comprovação da existência da décima
espinela no Decênio Farroupilha feita pelo mesmo historiador
na referida obra, elucida o autor da letra do Hino Rio-grandense como
decimista. Afirma Osório: "Nascido no Alegrete, Francisco
Pinto da Fontoura, passara dos braços de sua mãe aos
de uma senhora que, como tal, o criou. Já adolescente e dotado
de uma grande beleza, viveu separado desta dama por alguns anos, e,
quando retornou à sua presença, era mui outro: Como
está velho, o meu Chico! disse-lhe ela, entristecida sem poder
ocultar a surpresa. Fontoura, horas depois fixou êsse encontro
em doce lirismo:
"... Na primavera da vida,
Quando estes versos tracei,
Analia, nunca pensei,
Que a sorte me fosse infida
Esta barba encanecida,
Não é, Analia, dos anos,
É dos tristes desenganos;
São lembranças do passado
Do tempo em que, afortunado,
Eu era a flor dos humanos.
.................
Assim como a sensitiva,
Quando um choque sofre apenas,
Fica despida das penas,
Como morta, sendo viva;
Assim eu, na roda ativa,
Dos meus constantes azares,
Que me chovem a milhares.
Ves-me Analia encanecido,
Em meu semblante esculpido,
O quadro dos meus penares."
Mais uma constatação da décima no período
da República Rio-grandense é a obra da decimista gaúcha
Delfina Benigna da Cunha. Natural de São José do Norte
(17.06.1791 - 13.04.1857), ficou cega aos vinte meses de vida, mesmo
assim produziu obra importante. Seu primeiro livro Poesias Oferecidas
às Senhoras Rio-grandenses, editado em 1843, registra esta
décima que demonstra oposição ao movimento revolucionário,
tanto que denuncia uma forte aversão ao General Bento Gonçalves
da Silva.
"Chovam sobre ti os raios
Da Divina Providência
E seja tua existência
Passada em frios desmaios;
Nos mais cruentos ensaios
Sempre esteja engolfado,
Por querer do ímpio fado
Todos os males te assaltem
Té que os alentos te faltem
Bento infeliz, desvairado." .................
A décima retorna no sul do Brasil pelo canto improvisado de
Jayme Caetano Braun em 1958. Depois ganha as páginas de seus
livros e som nos seus programas de rádio e discos. Difunde-se
na sua voz pelos espetáculos e passa a ser produzida pelos
novos pajadores e poetas do Rio Grande do Sul. Hoje ganha oficialidade
através do MTG em seu ENART. Atualmente a décima está
reintegrada ao movimento cultural gaúcho. Contudo é
necessário aprender sua rigidez rimática e métrica
para não descaracterizá-la.
Culturalismo é mais sensato
Por
Paulo de Freitas Mendonça
Jornalista e pajador
Tenho andado pelo mundo e não vejo nada igual ao Rio Grande
do Sul, tanto positiva quanto negativamente. Somos realmente diferentes
ou nos fazemos diferenciar?
Por vezes lamento que somos assim tão ingênuos e outras,
tão vorazes. Ingênuos quando confundimos entretenimento,
diversão com cultura. Vorazes quando queremos que as pessoas
se divirtam seguindo normas rígidas. Inocentes, quando pensamos
em turismo cultural, mas damos mais valor ao regulamento do que ao
turista.
Temos um movimento cultural impressionante e ao mesmo tempo tão
preso dentro de si. Não consegue romper o invólucro
que o reprime.
O mal do movimento cultural do Rio Grande do Sul talvez seja o de
ser administrado por pessoas não intelectualizadas, na maioria
dos casos. É o único lugar do mundo em que as autoridades
culturais são eleitas. E quem faz concurso para sê-lo
subordina-se aos eleitos. Gente que nunca escreveu um livro, não
toca um instrumento sequer, não canta, não compõe
e não produz dita o que é certo ou errado. Considera
que a cultura seja algo estático, acabado e imutável.
O que não compreende ataca, proíbe e boicota. Por outro
lado, por não discernir entre a cultural ou a pseudo-cultura
compra uma pela outra. Insere-se na rede da indústria cultural
sem saber. Acaba vendendo para seu público imagem equivocada,
por simples necessidade, talvez, de gerar lucro.
Se pensarmos que só a invasão moura no sul da Europa
durou 800 anos e que nós temos 300, podemos dizer que somos
mais mouros do que gaúchos. Não é por acaso que
nossa forma de cantar tenha esta acentuação meio moura,
quase cigana. Que recitamos com esta impostação, que
improvisamos como os trovadores medievais e que dançamos como
dançamos.
Conhecer a Europa é defrontar-se com dados culturais milenares
e uma estrutura psíquica diferenciada perante os verdadeiros
bens culturais de um povo. O respeito para com o ser humano está
acima da censura em culturas bem estruturadas. Noto que em algumas
regiões do planeta, observar o povo parece ser mais aconselhável
do que querer doutriná-lo.
Nossa consciência cultural nativista não surge com o
movimento tradicionalista organizado como podem pensar os menos avisados.
Ela está presente no Parthenon Literário, nos Grêmios
Gaúchos de Cezimbra Jacques, na Sociedade Rio-grandense, no
lirismo farroupilha. Ganha oficialidade com o surgimento do 35 CTG,
em 1947 e depois com o MTG. Mesmo assim engatinhamos culturalmente
diante da humanidade.
Falamos que temos uma cultura forte, no entanto somos totalmente dependentes
de leis de incentivo, apoios governamentais e de estruturas enferrujadas
que nos dão com uma mão e nos tiram com a outra. Se
realmente fosse forte o nosso imaginário popular não
necessitaria de tantos reguladores. Quando é preciso regulamentar
a cultura é por que ela é tão frágil que
alguém precisa dizer como operacionalizá-la.
Quando a cultura é legítima ela permanece no ideário
popular. Temos um exemplo claro no Estado. A pajada sobreviveu por
quase cinco décadas sem ser reconhecida pelo tradicionalismo.
Faz cinco anos que está regulamentada e aceita dentro dos ditames
oficiais do movimento. Todavia está presente no gosto popular
desde que Braun resgatou essa forma tão ou mais tradicional
que a trova, em 1958. Não conheço ninguém que
não goste de pajada no Rio Grande do Sul. Sei que há
gente que desconhece esta arte, mas quem priva dela, gosta. Porém
isso é apenas um exemplo. A cultura gaúcha é
mais do que isso ou do que a indumentária, o baile, os esportes
culturais, os festivais, as gravações...
Segundo o dicionário da língua portuguesa, cultura é
o conjunto de características humanas que não são
inatas, e que se criam e se preservam ou aprimoram através
da comunicação e cooperação entre indivíduos
em sociedade. Cultura é também a produção
e transmissão de conhecimentos e a criação artística
de uma coletividade. Ou ainda, o sujeito social da história
forjado pela atividade concreta, tanto material quanto espiritual.
É o processo de desenvolvimento social de um grupo, povo, região
ou nação, que resulta no aprimoramento de seus valores,
instituições e criações.
Enquanto defensor da cultura, me coloco na condição
de culturalista. Penso que a cultura deva ser um processo autônomo
como na maior parte do mundo. Ela é de natureza coletiva e
realidade objetiva. Não deve estar sob o controle de indivíduos.
Enquanto nosso estado fragmenta o movimento cultural em tradicionalismo,
nativismo, regionalismo, gauchismo e outros “ismos” como
dizia Barbosa Lessa, prefiro analisar no contexto geral. Jogo mais
um “ismo” até então não citado neste
meio: prefiro o culturalismo. É a melhor forma de compreender
seus elementos.
Para entender o processo cultural de um povo não podemos menosprezar
o poder da indústria cultural tão estudada na Escola
de Frankfurt. A produção gerada pela indústria
cultural não é cultura e sim um produto com características
culturais.
Teodor Adorno é anunciador de que não se deve combater
o mal com o mal. Segundo ele, a antítese para o processo de
alienação é a arte. Ele julga que o trabalho
verdadeiramente artístico pode colocar o ser humano novamente
em sua autonomia psíquica.
Então, enquanto o tradicionalismo der mais importância
para o baile do que para a biblioteca, enquanto não possuir
uma discoteca, um acervo fotográfico, corre o risco de se auto
punir com verdadeiras aberrações.
Penso que ao invés de dividir, contestar, boicotar, punir e
obrigar a seguir regulamentos, o movimento cultural deva valorizar
o que realmente tenha teor artístico, sem se contentar com
o aplauso fácil, muito menos com a pobreza de criação
dos que estão mais próximos.
Tenho andado por esse mundão de Deus e quando volto pra casa
chego a conclusão que ainda não vi tudo.
Famoso "payador" que não existe
Paulo de Freitas Mendonça
Jornalista e pajador
Quem realmente conhece a história dos pajadores pode, ao ler
a manchete, pensar que eu me refira a Santos Vega. Há historiadores
que afirmam sua existência e outros que ele seja apenas uma
lenda. Não é de Santos Vega que trato hoje. É
sobre um pajador que está se consagrando via Internet, graças
a falta de cuidado de alguns dos nossos jornalistas e pseudo-pesquisadores
brasileiros.
Ainda não nasceu um homem
que tenha se tornado pajador com o nome ou sobrenome de Villón.
Quando da morte de Jayme Caetano Braun, em 1999, um conhecido jornalista
escreveu um artigo superficial num importante jornal de Porto Alegre
e por falta de informação afirmou como exemplos da pajada
nos países do Prata os nomes de "Gustavo Villón,
José Larraude e Argentino Luna". A partir daí muitos
outros artigos estão repetindo os mesmos enganos. Não
sei se por erro de digitação ou por desconhecimento
dois nomes saíram errados. Não contestei na época
por julgar que tudo se apagaria no final do dia quando os jornais
diários vão para o lixo. Mas a força da pajada
e do veículo, e ainda o desconhecimento generalizado do tema
fizeram a dita reportagem ter vida após o final daquele dia.
Hoje não são poucos os sites que reproduzem a referida
reportagem e outros publicam artigos de outras pessoas citando os
três ou só Villón. Talvez tenham descoberto que
os outros dois sejam "cantautores" e não "payadores".
Esclareçamos agora, embora tarde dado ao estrago feito pelos
papagaios de plantão. Argentino Luna nunca foi considerado
pajador em seu país, embora conheça a arte e vez por
outra arrisque algum improviso como a maioria dos artistas crioulos
daquele país. Por duas vezes pajou no Brasil, em Porto Alegre
e em Passo Fundo, mas foram as únicas vezes que se tem notícia
que tenha pajado em público. É um consagrado cantor,
autor, poeta e guitarreiro argentino, o que eles chamam de cantautor.
José Larralde (e não Larraude) também nunca foi
pajador, tanto que quando convidado pelos organizadores a participar
do Encontro de Pajadores da América Latina em Passo Fundo,
em 1993, declinou do convite sob a alegação de "no
soy payador, soy um cantor y guitarrero". Larralde hoje é
um dos principais nomes da música crioula argentina, mas não
improvisa e não usa a décima em seus poemas e relatos.
O terceiro, que é o nó principal desta questão,
nunca foi Villón e nem Lichon, Liton, Vichon e outros nomes
aleatórios, como já anda sendo citado por alguns sites.
Na verdade é o payador uruguaio Gustavo Guichon, meu particular
amigo, que conheci em 1982, nas Criollas do Parque Roosevelt, em Canolones,
no Uruguai e com quem tenho me encontrado pelo mundo a fora. Ele esteve
em Passo Fundo e Bagé. É um grande pajador que merece
ser citado em todos estes sites. Creio que se deva dedicar esta mídia
que está sendo jogada fora a quem merece.Sugiro que os conterrâneos
que corrijam seus artigos, pois até em livro já saiu
errado. O nome dele é Gustavo Guichon.
Aproveitando a deixa, quero dizer que tenho me sentido entristecido
ao pesquisar na Internet. A rede está cheia de artigos simplistas
que afirmam aberrações como verdades. É procedente
aquele dito de que uma frase incorreta repetida por muitas vezes e
por muitas pessoas passa a configurar como verdade absoluta.
Então, sem querer ser chato, dono da verdade ou outro adjetivo
que possam aplicar a esta atitude, discuto outros assuntos pertinentes.
Alguns sites citam a origem da palavra pajador mas nenhum é
convincente. Ora, tenho participado de diversos congressos pelo mundo
(vamos ter um em Porto Alegre) e nunca ouvi um especialista responder
a etimologia da palavra. Todos afirmam as mesmas hipóteses,
de que ela possa ter vindo de "palla", "payo"
"pagueador" ou "pago", mas nenhum comprova a origem
da palavra. Qualquer afirmação sem comprovação
etimológica da palavra pajador é leviandade. Em vários
sites há a afirmativa que tenha se originado de uma destas
ou de outras absurdas, e ponto final. É lamentável.
Outro esclarecimento: Os poemas Martin Fierro, Antônio Chimango
e Estância do Abandono não podem ser considerados como
pajadas. Eles são poemas que retratam o canto pajadoresco.
José Hernandez, Amaro Juvenal e Zeca Blau não foram
pajadores e sim poetas magistrais, todos com a inspiração
poética própria do cotidiano gauchesco da formação
do sul da América.
Mais um esclarecimento: Assim como Larralde e Luna não são
pajadores, não se deve confundir cantores guitarreiros que
interpretam o estilo pajadoresco com pajador. Possuem seu valor, mas
não o são.
Outro detalhe: a palavra em espanhol é "payador",
porque o "y" faz som de jota. Em português a palavra
é escrita com "j". Em ambos os idiomas a pronúncia
é a mesma, pajador.
Para finalizar, digo que a pajada vingou no Rio Grande do Sul e cito
alguns nomes que podem ser citados como referência do canto
pajadoril no Brasil, Uruguai, Chile e Argentina: Jayme Caetano Braun,
Gabino Ezeiza, Juan Nava, Roberto Ayrala, Carlos Molina, José
Curbelo, Pedro Yañes, Marta Suint, Jadir Oliveira, Lázaro
Moreno, José Estivalet, Cecília Astorga, Mariela Acevedo,
Gabino Souza, Arabi Rodrigues, Adão Bernardes, Walter Mosegui,
Pedro Junior da Fontoura, Juan Carlos Lopes, Victor Di Santo e, claro,
Gustavo Guichon, entre tantos outros.
Qualquer contestação com documento comprobatório
será bem-vinda.
Considerações sobre as letras de músicas
feitas para festivais.
Paulo de Freitas Mendonça
Jornalista, poeta, compositor, pajador
e estudioso da cultura poético-musical
do Rio Grande do Sul.
Os festivais do Rio Grande do Sul recebem em média de 400 a
500 músicas em cada triagem, alguns mais outros menos. Sem
entrar no mérito do grau de descontentamento ainda existente
por alguns autores que não classificam suas composições,
temos que abordar alguns dos porquês da rejeição
de certas concorrentes em relação a outras que alcançam
êxito.
Os compositores, quando jurados, estão analisando tecnicamente
as obras ali expostas à avaliação. Este fato
ocorre sem que os mesmos tenham conhecimento de quem são os
autores. Ora, algumas obras se sobressaem das demais pelo seu potencial
artístico. Em hipótese alguma quero dizer que sejam
em sua totalidade perfeitas. Há casos de classificações
de canções que não convencem os jurados em alguns
dos quesitos, mas são forçadas a figurar por questão
regulamentar que exige um número determinado de selecionadas.
Isto não é regra. Há vezes, por outro lado, que
sobram músicas consideradas boas pelos avaliadores, também
por este mesmo critério. Outro fator que deve ser considerado
é o artigo do regulamento que permite um número máximo
de um autor ou parceria.
Há festivais que tendem a dar uma linha considerada mais autêntica
para as músicas que vão a palco e outros menos. Com
relação às letras este conceito não foge
muito do que com a melodia. Cabe imediatamente uma pergunta: o que
é uma letra autenticamente gaúcha? Aqui se faz necessário
o esclarecimento de que a linguagem poética de letra de música
é aquela que consegue um maior imediatismo de entendimento
do que os versos de um poema. No entanto não se pode confundir
facilidade de compreensão com pobreza poética. Há
questões universais que devem ser observadas na criação
literária das músicas, sob pena de serem consideradas
obras menores.
Aristóteles classifica a poesia na categoria abstrata e o poema
no campo formal. Já René Wals diz que o poeta se expressa
por imagens. Segundo Massaud Moisés, “o verso pode encerrar
poesia, mas também pode exprimir qualquer outro tipo de conhecimento”.
Então compreendemos que há músicas cujas letras
estão carregadas de poética e outras desprovidas dela.
Como uma canção é o conjunto de letra e melodia,
acrescido de arranjos instrumental e vocal, às vezes ela se
consagra mesmo com deficiência poética.
Poesia no texto versificado é mímese, imitação
da ação. É a-narrativa. É a ebulição
interior, sem começo, meio ou fim, portanto sem história,
sem enredo.
Na instauração do Romantismo (Sec. XVII) as epopéias
deixam de circular e a poesia épica assume caráter tipicamente
poético, ou seja, não narrativo. Neste período
houve a transformação das epopéias em romance.
Os ingredientes romancescos servem à expressão das metáforas.
É necessário que o autor se expresse inteligentemente,
experimentando tensões, dando ritmo, cadência, sonoridade,
observando a metrificação, utilizando-se de sinalefas
quando necessário, empregando rimas ricas ou raras quando possível,
entendendo em que subgênero poético esta compondo.
Ao se converter no primeiro leitor de sua letra o compositor deve
analisar sua obra sob critérios técnicos. Passado o
momento da inspiração, chega o da catarse.
Deve evitar em uma construção poética a utilização
de palavras que não acrescentem sonoridades à obra.
Elas vão dar a cadência e gerar sensação
de emotividade no ouvinte. Há autores que afirmam que a sonoridade
da palavra possui maior efeito num verso do que seu sentido. Da mesma
forma que Alan Poe afirma que se há uma espingarda no conto
ela deve atirar, penso que o letrista não deve colocar palavras
sem uma forte significância sonora na letra. Pois a alternância
de sílabas longas e breves, ou tônicas e átonas,
pausas, e elevações e quedas da voz é formadora
da cadência, não do ritmo como pensa a maioria dos estudiosos.
O ritmo caracteriza-se pelas sonoridades puras. A sucessão
modulada oferece uma sensação musical. É a fusão
entre a emotividade, a musicalidade e a carga semântica. Gera
uma expectativa na sensibilidade e na inteligência do ouvinte.
É subjetiva, por isso varia em cada um e muitas vezes no mesmo,
dependendo do espírito do momento. O ritmo cada pessoa encontra
numa cena mental. Talvez esteja nesta questão o fato de que
dois musicistas associem melodias diferentes para a mesma letra.
Sem divagar muito em conceitos teóricos é imprescindível
que entendamos que a letra autêntica nos parâmetros da
cultura gaúcha não necessariamente seja a que mais se
reporte a uma cena de campo. Ela não precisa ser jocosa. Apenas
pode ser. Ela perde valor poético se for muito descritiva.
Há uma espécie de convenção não
escrita no Rio Grande do Sul de que a prosa poética musicada
seja o mais autêntico da canção gaúcha.
Sabemos que a expressão prosística difere da poética
em seus conceitos. A prosa descreve o universo geográfico plausível,
enquanto que o poema e a letra de música com elevado grau poético
criam seus universos próprios, uma espécie de geografia
virtual pela sintaxe, pelo nexo semântico entre as imagens.
A poesia no texto versificado é a arte da descrição
do eu poético. No momento em que a letra de música descreve
a geografia exterior real ela empobrece o fenômeno poético.
A poesia não comunica o que se sente, mas a contemplação
do que se sente. E a melhor forma desta contemplação
é a utilização de metáforas. Segundo Aristóteles
“a trivialidade e a vulgaridade serão evitadas por meio
do termo dialetal, da metáfora, do vocábulo ornamental,
enfim de tudo que afasta da linguagem corrente.”.
Não pretendo alongar-me mais na descrição de
outros problemas que “derrubam” concorrentes na triagem
como erros de concordância verbal, imagens equivocadas, algumas
vezes absurdas, tampouco abordar as constantes inadequações
entre letra e melodia.
Tampouco pretendo ditar formulas milagrosas que definam o que é
autêntico ou não, o que é correto ou não.
Apenas levanto questões para que outros estudiosos, provavelmente
com maiores conhecimentos que os meus dêem luz a um debate sadio
para que possamos refletir sobre a verdadeira arte poético-musical
do Rio Grande do Sul. Ao encerrar este breve comentário afirmo
que não compreendo a música gaúcha como definitiva.
Temos apenas 300 anos de história no Estado, 500 no país
e pouco mais de 50 de tradicionalismo e de 30 de nativismo. Nossa
cultura poética e musical está em plena formação
e precisa ser discutida e estudada. Seria muito cômodo pensar
que está tudo pronto, ademais a cultura de um povo não
é estática, assim como o ser humano que é uma
eterna fonte de aprendizado.
Falta diversidade e poética nos festivais
Paulo de Freitas Mendonça
Jornalista, poeta, compositor, pajador
e estudioso da cultura poético-musical
do Rio Grande do Sul.
O poema é uma vela. O festival, o templo. Há velas
que duram poucos minutos, outras, horas e algumas, dias. Há
diversidade de cores, formatos e utilidades, porém o que todas
tem em comum é a luz. No momento em que as religiões
indicarem aos seus fiéis um único tipo de vela para
todas as ocasiões as outras cairão em desuso ou no mínimo
colocarão seus fabricantes em dificuldade.
Tenho observado os festivais de poesia desde o surgimento deste ciclo.
Bem no princípio dele, acompanhei e tive o privilégio
de participar da Chasqueada de Livramento. Vejo, exceto raras exceções,
poucos tipos de vela a darem luz nestes certames. São églogas
(eclógas), epopéias corrompidas, poemas em versos brancos.
A maioria deles figura no que os estudiosos chamam de prosa poética
versificada. Apesar de considerar de importância relevante me
preocupa a ausência de velas de formatos diversos que possuem
mesma luz e não são acesas nestes templos.
É necessário que tenhamos bem claros alguns conceitos
para podermos refletir sobre o que é prosa poética e
texto versificado.
O que realmente são prosa, poesia, poema, verso, narrativa?
Equilibrar-se no fio de navalha que é a distinção
destes conceitos requer muita precaução. Às vezes
classificações precipitadas causam equívocos
estrondosos. Pior é quando o poeta desconhece as semelhanças
e as diferenças e, empiricamente produz obras, muitas vezes
de grande inspiração, mas de reduzido valor literário
por deficiência técnica ou classificações
equivocadas.
A expressão prosística difere da poética em seus
signos de conceito: a prosa poética descreve o universo geográfico
plausível enquanto que o poema com elevado grau poético
cria um universo próprio, uma espécie de geografia virtual
pela sintaxe, pelo nexo semântico entre as imagens.
A poesia no texto versificado é síntese, é a
arte da descrição do eu poético que cria uma
geografia própria, o universo do poema. No momento em que descreve
a geografia exterior, real, ele empobrece o fenômeno poético.
A realidade é relato.
Na prosa há narradores diversos. Na poesia, geralmente o narrador
é o “eu poético”, a voz interior do poeta-homem-civil.
Na poesia oral o autor transfere esta legitimidade ao declamador.
“O poeta pensa por imagens”, afirma René Waltz.
Às vezes eu me pergunto porque os festivais de poemas são
denominados Festivais de Poesia e só aceitam poemas, se a poesia
pode estar no poema em verso como no poema em prosa, no conto, no
romance, na novela, na fotografia, na pintura... O teatro pode assumir
forte carga poética.
Há uma associação imediata entre poema e poesia.
Não se pode confundir poesia com poema ou com verso. Aristóteles
classifica a poesia na categoria abstrata e o poema na categoria formal;
Segundo Massaud Moisés, “o verso pode encerrar poesia,
mas também pode exprimir qualquer outro tipo de conhecimento”.
Quando faço improviso comentando os feitos da semana não
estou fazendo poesia. Estou criando um relato versificado, neste caso
de improviso e em Décima Espinela. Aliás, a Décima
Espinela ganhou notoriedade através do teatro europeu, no século
XVII.
Poesia no texto versificado é mímese, imitação
da ação. É a-narrativa. É a ebulição
interior, sem começo, meio ou fim, portanto sem história,
sem enredo.
Na instauração do Romantismo (Sec. XVII) as epopéias
deixam de circular e a poesia épica assume caráter tipicamente
poético, ou seja, não narrativo. Neste período
houve a transformação das epopéias em romance.
Os ingredientes romancescos servem à expressão das metáforas.
A poesia não comunica o que se sente, mas a contemplação
do que se sente.
O poeta ao produzir o poema deve ter consciência da linha característica
de sua obra. Nota-se, em muitos casos, um empirismo impressionante
como se a inspiração fosse tudo, mas a técnica
é fundamental. O que o leitor ou ouvinte absorve inconscientemente,
o poeta deve ter consciência no instante preciso da criação.
É necessário que ele se expresse inteligentemente, experimentando
tensões, dando ritmo, cadência, sonoridade, observando
a metrificação, utilizando-se de sinalefas quando necessário,
empregando rimas ricas ou raras quando possível, entendendo
em que subgênero poético esta compondo.
Ao se converter no primeiro leitor de seu poema, o poeta deve analisar
sua obra sob critérios técnicos. Passado o momento da
inspiração, chega o da catarse.
O declamador também deve ter conhecimento técnico, especialmente
no que se refere à metrificação e sinalefa, para
que não quebre o verso produzido metrificado. Às vezes
em uma ênclise o declamador pode quebrar o verso tecnicamente
correto.
Sem me deter na profundidade que merece o estudo do poema, penso que
para o fazer poético com texto versificado é necessário
o conhecimento desde os conceitos básicos da gramática
nominativa, passando pela diversidade da sílaba. Sílabas
pretônica, tônica, postônica, aberta, fechada, acípite,
breve, longa... É fundamental saber quais são versos
agudos, alexandrinos, anacíclicos, brancos, esdrúxulos,
graves, heptâmetros, heróicos, livres, leoninos...
É imprescindível conhecer a escansão, a sinalefa,
sinérese, a elisão, os tipos e o valor das rima, as
estrofes, os subgêneros poéticos. Deve entender a cadência
e o ritmo dos poemas. Aliás, aqui cabe uma análise mais
profunda: a grande maioria dos autores confunde cadência com
ritmo. A alternância de sílabas longas e breves, ou tônicas
e átonas, pausas, e elevações e quedas da voz
é formadora da cadência, não do ritmo como pensa
a maioria dos estudiosos.
O ritmo caracteriza-se pelas sonoridades puras. A sucessão
modulada oferece uma sensação musical. É a fusão
entre a emotividade, a musicalidade e a carga semântica. Gera
uma expectativa na sensibilidade e na inteligência do leitor.
É subjetiva, por isso varia em cada leitor e muitas vezes no
mesmo, dependendo do espírito do momento. Cada pessoa encontra
o ritmo numa cena mental. Talvez esteja nesta questão o fato
de dois musicistas associarem melodias diferentes para o mesmo poema
musicado.
A quem interessa a luz é importante saber qual o tipo de vela
acender. A quem administra o templo julgo que seja pertinente permitir
todos os tipos e formatos de velas para que haja a real manutenção
da diversidade sem perder brilho.
|